quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A(s)sombra





















Sempre há você em mim,
Mesmo não havendo
Disfarce para a sombra
De dúvidas que assombra
Meu coração ao meio-dia
Da tua alma que grita
Por um pouco mais de ar
Pra ânsia do meu peito
Asmático destemido amar
Que mesmo já sem chance
Atropelou o destino a tempo
Comeu o vento pelas bordas
E depois de você visitou
O relento de qualquer outro
Sem ousar ser de mais
Ninguém.

Ana Oliveira

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Inteira(mente)

Preciso saber da tua vida
Mesmo que da minha repartida
Mesmo que de longe nada queira
Pensa que de ti serei inteira

Se vale um coração que mente
Toma que o meu finge o que sente
Sorri para o dia ser engolido
Pra noite contar que tinha mentido

Ana Oliveira

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Madeleine




















Ando por aí quase sem mim
Querendo abraçar saudades
Num caminho feito de partidas
Deixo o mar de lágrimas vividas

Ando também quase sem ti
Com olhos cheios de ausência
Regresso a um eu que era teu
Que do ontem, o hoje comeu

Desse amor que não pode ser
Quero dele que viva em alguém
Como uma Madeleine mordida
Que no devir não fora esquecida

Ana Oliveira

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O beijo













De tão ausente e distante
Sem mais textura, nem tempo
Dormindo frio ao relento
Matou de espera o amante

Assim com a pele rasgada
Sentiu que nada sentia
De tudo que a boca sabia
Ao desejo nada adiantava

Em pensar que de loucura
Um dia incendiou a face
Que agora é rubro disfarce
Do beijo que me tortura

Ana Oliveira

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Abandonos

Risco meu rosto cansado
E visto a máscara de estátua
Saio engolindo tristezas
Pelos abandonos da rua

Choro a sina da impotência
Da resistência de mãos atadas
De um olhar que sente a cidade
Que passa saudando a calçada

Ando passível ao encontro
De quem vive a própria sorte
Teimando escrever a história
Da vida que segue sem rosto

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Deseo de niña















En encuentros imaginarios
Te veo en medio a la multitud
Planeo mis palabras ensayadas
Salgo a tropezar en mi inquietud

En una soledad ansiosa y callada
Con invencible deseo de niña
Vivo de toda sorte, aislada
A buscarte como ave de rapiña

Sin ti, mi memoria es una luz
Que alumbra un ricón sombrío
Hecho ojos paganos de un andaluz
Desenganado amor en desvarío

Ana Oliveira

Amor chuva





















Sem saber por onde começar
Nem quem querer
Cansado da fama de tudo poder
O amor se fez chuva
Pra não ter que explicar
E chegar sem pedir
Choveu assim
Como, quando e onde quis
Levou as coisas do varal
E ignorou os desavisados
Tão breve e devastador
Que arrasou tudo
Deixando rastos molhados
Que secam
Mas nunca são os mesmos
Penetrou na alma da roupa
E na roupa da alma.

Ana Oliveira

sábado, 2 de julho de 2016

Ainda sobre sonhos





















Sonhos são balões selvagens
Que moram no céu do inconsciente.
Vagam pelos atalhos das nuvens
Em meio à metamorfose das chuvas ácidas
Que choram vermelhos pingos de saudade.
Devaneios que nunca dormem
Sabem misturar desejos
Com mentiras escondidas
Querem ser contados,
Mas muito mais esquecidos
São quimeras voadoras que viram mar
Rabiscos oníricos
De onde saltam seios macios, ressentidos,
Vivem no pequeno instante
Em que os cílios borboleteiam
No véu da madrugada

Ana Oliveira