domingo, 17 de março de 2019

Clarice

Brincar era minha única ocupação. Também pudera, Clarice cuidava de tudo. Lavava, espanava, cozinhava e ainda lhe sobrava tempo para contar histórias. Sua imaginação dava asas à minha. Eram tantos cavaleiros, princesas e porquinhos que volta e meia, confundiam-se em meus sonhos infantis. Minha mãe só corria. Tinha a impressão de nunca a ter visto caminhar. Imaginava no lugar de seus pés, patins. Clarice não. Deslizava silenciosamente pela casa como se tivesse almofadas sob os velhos chinelos. E fazia doce. De leite, morango, brigadeiro de panela e o melhor bolo de chocolate do mundo. 

Enquanto mamãe corria, papai acumulava. Tinha coleção de carros antigos, selos, camisas de futebol e amantes. Vez ou outra via Clarice andando mais apressada que o normal, entre um cômodo e outro, levando comprimidos e ramalhetes de flores. E ela nunca dormia, cochilava. Com frequência era alvo de minhas travessuras. Já nem brigava comigo quando ao olhar-se no espelho, pela manhã, encontrava um rosto estranho, todo maquiado como uma boneca fantasiada de colombina. Ria alto! E me chamava de “minha pestinha”. 

Era assim que sabia amar. E ensinar. Deixava-me usar suas poucas e velhas roupas e com elas, eu compunha espetáculos cuja plateia era ela, com direito a palmas e pipoca. Enquanto isso, mamãe corria. Um dia, um colega de escola ao vê-la chegando para me buscar pergunta: -Quem é ela? E eu, instantaneamente respondo sem piscar: - É minha mãe. Pois era assim que a sentia. Uma fada. A bruxa boa do Norte. Enquanto isso, papai colecionava. 

Anos mais tarde, vejo minha mãe imóvel, pálida e minha Clarice com uma mala na mão. – Muito velha, só atrapalho! Não teve súplica nem insistência, nem mesmo minhas ameaças de suicídio (e até homicídio) surtiram efeito pois, segundo papai, a velha estava mesmo muito lenta. À órfã da casa restava estudar, entrar para a faculdade sem brigadeiros, bolos ou histórias. 

Logo vieram as festas, o vestido, o diploma e os plantões hospitalares. Em uma noite agitada e cansativa, vejo sentada, quietinha, de cabeça baixa e branca, uma senhora franzina de olhar triste. É minha Clarice! Ela olha e seu olhar agora é de alegria, é minha pestinha! Minha mãe está visivelmente doente. Reside em um lar de idosos e conta que gosta muito de lá, pois toda a tarde joga cartas com a dona Isaura e seu Luiz. Só não entende porque a comida é tão escassa: - É para o meu bem, dizem as enfermeiras, pois comer demais faz mal para o colesterol. Uma mocinha muito simpática vem de vez em quando pintas nossas unhas. E essa fome que não me deixa dormir? 

Bastaram alguns instantes para tudo voltar em minha mente. Eu era a pestinha dela, ela, minha bruxa boa do Norte. Clarice voltou e agora minha cama, meu zelo e meu mundo novamente lhe pertencem. Só que agora eu sou sua mãe. Sua Clarice. Minha mãe continua correndo entre comprimidos e as amantes de meu pai. Clarice não mais cochilou. Em meus braços, enfim adormeceu. 

Ana Oliveira, 2014.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Rapte-me camaleão

Quer coisa mais forte que isso?
Somos vento.
Conhece algum macho que se autoproclame: vento?
Perdem tanto tempo sendo viris que não se permitem ser metáfora.
Somos alegoria.
Capazes de ser qualquer coisa e por isso, impossíveis.
E de tantos devires podemos ser livremente: tudo e nada.
Inclusive literais.
Machismo algum jamais vai entender isso: rapte-me camaleão!
Mulher é portátil, inoxidável, eu sou.

Ana Oliveira

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Mutação

A amargo azedou o doce.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

sábado, 23 de junho de 2018

Glossolália

Desde março não escrevenho
Não reamarelo os dedos
Nada me escorre pelo canto da boca
Não respiro pelo abdômen
Nem homem, nem moçassinto
Desde abril não vejo escova
Não cheiro acetona, alcoolizo
Nada me ocorre no estômago
Nem o amor, nem ânsiasia
Não solfejo nem vejo sol
Desde maio não comovento
Não derramo estranhezas
Nada me gasta a desvida
Nem a dor nem a bebida
Não vejo a hora de agostar

Ana Oliveira



quinta-feira, 1 de março de 2018

Aos abalos e remendos

















Estou sempre a remendar a vida
Parece que meu lugar no mundo
É fora dele. À parte. Ao lado.
É isso! Meu lugar no mundo
É à margem desta vasta esfera
Onde mais vasto é o meu coração
Talvez o deserto seja o meu lugar
Inóspito, frio, imenso
O mesmo deserto que decerto vive
Dentro dessa imensidão de pessoas
Que se desencontram no aglomero
De seus pensamentos
É que o inferno somos nós
E o problema não é a multidão
Mas ter que fugir da gente
Somos perseguidores de nós
Talvez a escolha fosse parar de fugir
E voltar para o útero da terra
Ou buscar a gente n’alguma profundeza
Em alguma cova ancestral
Nesses lugares escuros, cheios de bichos
Nenhum mais cruel do que aqueles
Que carcomem a alma
Amiga, a vida só é aceitável na arte
De resto são libertamentos
Que só as lápides podem nos dar
A arte anda a contemplar
Transeuntes apressados
A procurar de dor
Amiga, ao contrário de morrer,
Viver dói todo dia.

Ana Oliveira

Referência imagem: https://bokja.wordpress.com/2013/04/08/migration-stories/

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Em caso de liberdade, quebre o vidro.


No quadro que mora na parede
Há uma bailarina

No quadro que mora na parede
Há uma bailarina morta

Morta de saudade...
Morta de desejo...
Morta de vontade de sair de dentro do quadro

E dançar!

Ana Oliveira

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Poema da tarde

Tardes de gabinete
Papéis revoltosos
Jogados ao acaso
Dados mallarmenianos

Alma reticente
A espera do poema
Algemado e amarelo
Voa abruptamente

Corpo transcendente
Devorador de sóis
E de sorrisos de lua
Poesia aloucada e nua

20/11/2017