segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Rumores

Rum. 
Am(od)ores.
O corpo flambado
em uma noite-quase-dia.
Dói?
Não, mas queima.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Cine vida

Nem o filme de uma vida vivida
Fugirá da história contada
E das memórias borradas
Pelo tempo
E pelo álcool 
Tão pouco escapará
Da cara de pau
De uma sedução estudada
Pela morte
E pelo departamento
De marketing da vida
Viver é sentir pouco a pouco
A perda irreparável do fim
De cada dia
Porque viver 
É morrer sem morrer

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Abraços envelopados

Chega uma caixa
Vinda de longe
Bem embalada, cor de terra
Dentro, um amuleto e um bilhete
Parece que a história acaba
Mas não, só começa
Tinha mais algo no fundo
Escondido em sua timidez
Nunca estivera acostumado
A viajar distâncias envelopadas
Preferia esperar para fazer-se
Apertado e presente
Mas então vieram
As portas trancadas
E os braços cruzados
Sem vírus e sem afeto
Precisou se reinventar
Metendo-se dentro de caixas,
Envelopes e computadores
Na esperança de cumprir
Sua sina, indelével missão
De abraço-viajante

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Pequenas mortes diárias




Morrer só por hoje
Em silêncio
Num lugar quente
Escuro abraço

Morrer só um pouco
Pra ser leve
Ser vivo
Breve sossego

Morrer só pra viver
Mais um dia
Menos um
Funesto instante

sábado, 21 de dezembro de 2019

VXIII

[14:28] No vazio da escrita, as vezes, moram outras palavras. Como uma casa desabitada no meio do mato, o intervalo da escrita abriga poemas, canções e pensamentos outros.

[14:34] Ela diz que não, mas gosta desse corte, que à moda Cabral, é por onde lhe escorrem os poemas. Um buraco no meio do peito. Um intervalo no meio do dia. Uma ruptura no meio da pós-modernidade.

VII

[18:04] Enquanto apaga três dos cinco capítulos escritos, vem a mente interrogações das mais variadas profundezas:
[18:06] Porque o pão sempre cai com o recheio virado pra baixo?
[18:07] Porque a xícara tem apenas uma alça?
[18:08] Como te amar sem me odiar?
E fica pensando que podemos nos apaixonar por quem não nos ama, mas que a amizade só existe na admiração de um para o outro.
[18:11] E que a geleia é sempre melhor que a dieta.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

VI


22:44]Deveria ter escrito ao menos duas páginas. Mas não. Entre recorta, cola e apaga, foi apenas uma. Mísera e desgraçada página dos quintos dos infernos. Calma. Pessoa letrada não fala assim. 
[22:47]Letrada? Lesada! Levanta e começa a pensar em rimas para letrada. 
[22:51]Letrux não rima, mas ‘Vai render’ é uma ótima música pra se ouvir agora. Pronto. Acabaram-se as letras por hoje.

V

[23:02] Passa o dia todo em trabalho de parto literário. Sente dores nas costas. Bebe muito café. Deita. Sonha acordada e dormindo. Caminha pelo apartamento à moda da barata tonta. Assiste a um filme de Guel Arraes. Brinca com sua gata e uma bolinha de papel enquanto pensa:
[23:06] A gata.
A gata nem sempre parece gato. Parece cachorro. Parece coelho. Mas, diferente de coelhos ou cachorros, a gata dorme porque quer dormir. Come porque quer comer. Fica em silêncio porque não tem nada a dizer. Ser gato é da ordem das vontadezas.