quinta-feira, 9 de março de 2017

Rodopiando solidão


Se vive morta
De saudade
A bailarina
Dança dentro do quadro

Rodopiando solidão
De ponta em ponta
Desaponta o ritmo
Da multidão 

Sabe que a dor 
Sempre aparece
Pra cortar dedos e laços 

Por isso dança 
Se joga pra fora do quadro
E do coração

Ana Oliveira

A volta do flamingo

Há tantas gaiolas
Apáticas, vulneráveis
Azedas de amargar
Forjadas a fel
Feitas pra arrasar o tempo
Estragar a festa
Misturadas com o vazio
Impotente e surdo
Carcomido de inveja
Da vida que deságua
Pronta para teimar
E levar incertezas
Pra longe da gente
Há tantos medos
Disfarçados de vento
Levam a alma
De asas já cortadas
Cobertas pelo véu da noite
Que o flamingo traz de volta
Pois alma não se ajoelha
Volta de manhã
Pra fazer o café

Ana Oliveira

quinta-feira, 2 de março de 2017

A borboleta branca

Te sinto desordenado. Por tudo que deve estar vivendo neste instante pássaro. Sem gaiola nem amarras, sem convenções nem exigências. Te vejo no olho de um ciclone chamado vida tentando agarrar as coisas que aos poucos te deixaram, que aos poucos se perderam, como se ao mesmo tempo quisesse abraçar e soltar. Eu acho tudo isso lindo e louvo! Só que no meio dessa bagunça ainda não consegui me ver. E tenho meu fluxo. Tenho meu porto cá bem definido. Eu até gosto do estrago, mas o do amor vivido, consumido, das mordidas e joelhos arranhados. É nesse poço que me jogo. Do outro, aquele sem fundo, prefiro o sossego. Porque solidão é sossegar. Solidão é como o voo da borboleta branca que de tão imensa vira pássaro só pra voar pra mais longe. Ainda não te sinto solidão. Te vejo como uma gaveta amontoada de memórias que querem ser guardadas, só que ainda não. Precisam da vastidão do tempo e de mais espaço. E talvez de outras histórias, não para substituir, mas para serem vividas. Te vejo perdido e não quero ser a engrenagem que falta, mas a vela que ilumina.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

El poema llamado carne

No me mandes besos
Mándame sellos
Para que te devuelva cartas
Sucias, com aroma de pele
Arañada, escupida

No me mandes besos
Pero cabellos arrancados
Comidos por las uñas
Y dientes tatuados en el cuerpo
Sin ninguma censura

No me mandes besos
Ordenes al deseo
Que haga las valijas
Y sumerja en el poema
Que libre, llamase carne

Mar Rubina

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Tempo para jogar dentro


Quero jogar tudo fora
O tempo, a roupa
A louca liberdade
De ser só um
E ainda mais livre
Ao virar dois
Quero ter menos
Jeito de ventania
Para ser brisa
Ao teu lado
Que é colo e canção
Que a solidão
Jogue tudo fora
Só para depois
Catar cada pedaço
Colar em cada abraço
O segredo do teu riso
Que também é meu
E que depois emudece
Porque o beijo cala
E a carne exala o silêncio
Da nossa febre em festa
Quero jogar tudo fora
Pra viver dentro de você


Ana Oliveira

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Doce minimalismo






















O quintal do universo
Que de tão cheio
Esqueceu-se
Das miúdas
E sufocadas pétalas
Que agora vivem
Em pequenos casulos
Graças aos dedos
Maternos e delicados
Da filha da natureza
Neta do destino
Que acolhe sonhos
Em minúsculos
Vasilhames etéreos

(Para Carol e seu lindo Jardim da Mata)

Ana Oliveira

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Metade

Esses pedaços
Um pouco meus,
Um pouco seus
Andando por aí
Presos em outros
Assim também, remendados
Apressados em esquecer
Feito estátua corroída
Pelo tempo
Dessa vida
Um tanto minha
Um tanto sua
Assim, dividida
Fadados a viver

Ana Oliveira

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Capitu


Que olhos tristes
Esses que de ressaca
Morrem todos os dias
À beira do amar
Feitos de abismo
Cansados de tanto ver
O sentir refletido
Na prisão do querer
Que memória vive
No olhar alheio
Ao instante alvoroçado
Da onda que matou o anseio?

Ana Oliveira