quarta-feira, 2 de junho de 2021

O fim do poema


Não tenho mais poesia. Enfim, literal. Uma escrita apática, antes sombria. Apenas fosca. Foram os anos, os desamores, os dissabores. As perdas, os danos, os enganos. Não sei. A poesia virou um cinzeiro abarrotado e amanhecido. Um mofo de pão. Uma casca de qualquer coisa que já não serve. Vocês venceram! Já não há mais olhos marejados, nem mariposas estomacais. Apenas uma acidez assídua e vencedora. Não há mais sequer um resto, restolho, restinho, de nada. Só embrulho, entulho. Cascalhos de palavras chutadas. Não me peça mais para escrever, exija qualquer outra coisa. Um tapa na cara, um gole de cachaça, me mande para aquele lugar, mas poesia, nunca mais. 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

A ponta

Aquele iceberg que te mostrei na TV
Era apenas uma ponta gelada
Uso o resto que fica embaixo d'água
Para te dizer que é assim que me sinto
Submersa, quase congelada na agonia
Da tua dualidade frenética
Do teu sorriso inconstante
Que me escapa pelos vãos dos cabelos
Tão escassos quanto tua alegria
Aquela extremidade fria
É o pedaço que conheço de ti
Ínfimo diante do que te transtorna
Do que entorna o caldo da tua urgência
E da minha parca paciência

Ana Oliveira

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Ressaca

Dentro dela há
Um emaranhado

Corpos, vírus e cheiros
Coquetelados
Em tempos ainda mais difíceis
Que os de Amélie

Alcoolizados pela inspiração
Que vem do estrago
Ou da crença na volta do afeto

Dentro dela há
Uma maldição

Mais sina que acaso
Mais acaso que escolha
Mais cachaça que ego

Dentro dela há
Infinitas tentativas de dizer não

Esse lugar que não acaba


O coração
Invadido pelas beiradas
Atacado pelas fronteiras

O tempo
Quase muito cedo
Quase muito tarde

O corpo
Infestado de língua
Ocupado pelas manhãs

A paixão
Concedida à força
Intromissão desejada

E eu legislada tentando sair desse lugar
Carcomido e alheio ao coração, ao tempo e ao corpo 

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Rumores

Rum. 
Am(od)ores.
O corpo flambado
em uma noite-quase-dia.
Dói?
Não, mas queima.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Cine vida

Nem o filme de uma vida vivida
Fugirá da história contada
E das memórias borradas
Pelo tempo
E pelo álcool 
Tão pouco escapará
Da cara de pau
De uma sedução estudada
Pela morte
E pelo departamento
De marketing da vida
Viver é sentir pouco a pouco
A perda irreparável do fim
De cada dia
Porque viver 
É morrer sem morrer

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Abraços envelopados

Chega uma caixa
Vinda de longe
Bem embalada, cor de terra
Dentro, um amuleto e um bilhete
Parece que a história acaba
Mas não, só começa
Tinha mais algo no fundo
Escondido em sua timidez
Nunca estivera acostumado
A viajar distâncias envelopadas
Preferia esperar para fazer-se
Apertado e presente
Mas então vieram
As portas trancadas
E os braços cruzados
Sem vírus e sem afeto
Precisou se reinventar
Metendo-se dentro de caixas,
Envelopes e computadores
Na esperança de cumprir
Sua sina, indelével missão
De abraço-viajante

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Pequenas mortes diárias




Morrer só por hoje
Em silêncio
Num lugar quente
Escuro abraço

Morrer só um pouco
Pra ser leve
Ser vivo
Breve sossego

Morrer só pra viver
Mais um dia
Menos um
Funesto instante