quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Pequenas mortes diárias




Morrer só por hoje
Em silêncio
Num lugar quente
Escuro abraço

Morrer só um pouco
Pra ser leve
Ser vivo
Breve sossego

Morrer só pra viver
Mais um dia
Menos um
Funesto instante

sábado, 21 de dezembro de 2019

VXIII

[14:28] No vazio da escrita, as vezes, moram outras palavras. Como uma casa desabitada no meio do mato, o intervalo da escrita abriga poemas, canções e pensamentos outros.

[14:34] Ela diz que não, mas gosta desse corte, que à moda Cabral, é por onde lhe escorrem os poemas. Um buraco no meio do peito. Um intervalo no meio do dia. Uma ruptura no meio da pós-modernidade.

VII

[18:04] Enquanto apaga três dos cinco capítulos escritos, vem a mente interrogações das mais variadas profundezas:
[18:06] Porque o pão sempre cai com o recheio virado pra baixo?
[18:07] Porque a xícara tem apenas uma alça?
[18:08] Como te amar sem me odiar?
E fica pensando que podemos nos apaixonar por quem não nos ama, mas que a amizade só existe na admiração de um para o outro.
[18:11] E que a geleia é sempre melhor que a dieta.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

VI


22:44]Deveria ter escrito ao menos duas páginas. Mas não. Entre recorta, cola e apaga, foi apenas uma. Mísera e desgraçada página dos quintos dos infernos. Calma. Pessoa letrada não fala assim. 
[22:47]Letrada? Lesada! Levanta e começa a pensar em rimas para letrada. 
[22:51]Letrux não rima, mas ‘Vai render’ é uma ótima música pra se ouvir agora. Pronto. Acabaram-se as letras por hoje.

V

[23:02] Passa o dia todo em trabalho de parto literário. Sente dores nas costas. Bebe muito café. Deita. Sonha acordada e dormindo. Caminha pelo apartamento à moda da barata tonta. Assiste a um filme de Guel Arraes. Brinca com sua gata e uma bolinha de papel enquanto pensa:
[23:06] A gata.
A gata nem sempre parece gato. Parece cachorro. Parece coelho. Mas, diferente de coelhos ou cachorros, a gata dorme porque quer dormir. Come porque quer comer. Fica em silêncio porque não tem nada a dizer. Ser gato é da ordem das vontadezas.

IV

[15:47]: Saldo da tarde de escrita:
[15:45}: Três poemas, uma conclusão sobre o caráter dos deuses e um pão comido por uma formiga.

III

[15:30]: Nenhuma palavra digitada. Nem escrita. Só silêncio. Enquanto o vazio toma conta do branco ela observa uma formiguinha na parede:
[15:33]: A formiga.
A formiga não é bem uma formiga. É um pontinho caminhante que vagueia no deserto branco. A parede é limpa-suja. Tem ondulações. Paralelepípedos formiguíneos. A formiga tem apenas um destino. O pão.

sábado, 14 de dezembro de 2019

II

[16:07]:Para continuar fugindo da escrita ela conversa com seus irmãos londrinos sobre intermináveis assuntos aleatórios:
[16:09]: - Pede ajuda para o tio Lú! Ele nunca nos desampara. 
[16:09]: - Esse aí eu não confio. Gosto. Mas não confio. Nem Drácula confia nele. 
[16:09]: - Na real o tio Lú e o Drácula tem uma competição. 
[16:10]: - Sim. [16:10]: Mas o Dracula dá um show no tio Lu em classe e indumentária. 
[16:11]: Se dá! Ele é um Lord. O Lú é um lacaio.