Em meio aos girassóis
Do Século de Ouro
Grávida de naturezas-mortas
Seu inimigo não é mais o tempo
Mas os pigmentos que desbotam
A cada primavera provençal
Sua profundeza ora invadida
Por testes de laboratório
Descama, perde filhos e camadas
Deflorada por venenosas
Misturas hormonais
Tudo envelhece
Sangue, aquarelas, ovários
Menos a pintura fecundada
No meio da sala do sonho
Ana Oliveira
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
quarta-feira, 31 de julho de 2019
Semente
Perdemos os cabelos, o juízo por tantas desilusões,
Mudamos de casa, de emprego, mudamos de ideia
Os cabelos cresceram, a saúde voltou,
Nós não somos mais as mesmas, mas ainda somos essência
Quatro anos se foram
Pra trazer mais uma Monange
Quatro anos virão
Para outra vez olharmos as fotos e pensar:
Quem são estas garotas?
Somos nossa própria semente
Ana Oliveira
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
Rapte-me camaleão
Quer coisa mais forte que isso?
Somos vento.
Conhece algum macho que se autoproclame: vento?
Perdem tanto tempo sendo viris que não se permitem ser metáfora.
Somos alegoria.
Capazes de ser qualquer coisa e por isso, impossíveis.
E de tantos devires podemos ser livremente: tudo e nada.
Inclusive literais.
Machismo algum jamais vai entender isso: rapte-me camaleão!
Mulher é portátil, inoxidável, eu sou.
Ana Oliveira
Somos vento.
Conhece algum macho que se autoproclame: vento?
Perdem tanto tempo sendo viris que não se permitem ser metáfora.
Somos alegoria.
Capazes de ser qualquer coisa e por isso, impossíveis.
E de tantos devires podemos ser livremente: tudo e nada.
Inclusive literais.
Machismo algum jamais vai entender isso: rapte-me camaleão!
Mulher é portátil, inoxidável, eu sou.
Ana Oliveira
terça-feira, 16 de outubro de 2018
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
sábado, 23 de junho de 2018
Glossolália
Desde março não escrevenho
Não reamarelo os dedos
Nada me escorre pelo canto da boca
Não respiro pelo abdômen
Nem homem, nem moçassinto
Desde abril não vejo escova
Não cheiro acetona, alcoolizo
Nada me ocorre no estômago
Nem o amor, nem ânsiasia
Não solfejo nem vejo sol
Desde maio não comovento
Não derramo estranhezas
Nada me gasta a desvida
Nem a dor nem a bebida
Não vejo a hora de agostar
Ana Oliveira
Não reamarelo os dedos
Nada me escorre pelo canto da boca
Não respiro pelo abdômen
Nem homem, nem moçassinto
Desde abril não vejo escova
Não cheiro acetona, alcoolizo
Nada me ocorre no estômago
Nem o amor, nem ânsiasia
Não solfejo nem vejo sol
Desde maio não comovento
Não derramo estranhezas
Nada me gasta a desvida
Nem a dor nem a bebida
Não vejo a hora de agostar
Ana Oliveira
quinta-feira, 1 de março de 2018
Aos abalos e remendos
Estou sempre a remendar a vida
Parece que meu lugar no mundo
É fora dele. À parte. Ao lado.
É isso! Meu lugar no mundo
É à margem desta vasta esfera
Onde mais vasto é o meu coração
Talvez o deserto seja o meu lugar
Inóspito, frio, imenso
O mesmo deserto que decerto vive
Dentro dessa imensidão de pessoas
Que se desencontram no aglomero
De seus pensamentos
É que o inferno somos nós
E o problema não é a multidão
Mas ter que fugir da gente
Somos perseguidores de nós
Talvez a escolha fosse parar de fugir
E voltar para o útero da terra
Ou buscar a gente n’alguma profundeza
Em alguma cova ancestral
Nesses lugares escuros, cheios de bichos
Nenhum mais cruel do que aqueles
Que carcomem a alma
Amiga, a vida só é aceitável na arte
De resto são libertamentos
Que só as lápides podem nos dar
A arte anda a contemplar
Transeuntes apressados
A procurar de dor
Amiga, ao contrário de morrer,
Viver dói todo dia.
Ana Oliveira
Referência imagem: https://bokja.wordpress.com/2013/04/08/migration-stories/
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Em caso de liberdade, quebre o vidro.
No quadro que mora na parede
Há uma bailarina
No quadro que mora na parede
Há uma bailarina morta
Morta de saudade...
Morta de desejo...
Morta de vontade de sair de dentro do quadro
E dançar!
Ana Oliveira
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