quinta-feira, 14 de julho de 2016

Amor chuva





















Sem saber por onde começar
Nem quem querer
Cansado da fama de tudo poder
O amor se fez chuva
Pra não ter que explicar
E chegar sem pedir
Choveu assim
Como, quando e onde quis
Levou as coisas do varal
E ignorou os desavisados
Tão breve e devastador
Que arrasou tudo
Deixando rastos molhados
Que secam
Mas nunca são os mesmos
Penetrou na alma da roupa
E na roupa da alma.

Ana Oliveira

sábado, 2 de julho de 2016

Ainda sobre sonhos





















Sonhos são balões selvagens
Que moram no céu do inconsciente.
Vagam pelos atalhos das nuvens
Em meio à metamorfose das chuvas ácidas
Que choram vermelhos pingos de saudade.
Devaneios que nunca dormem
Sabem misturar desejos
Com mentiras escondidas
Querem ser contados,
Mas muito mais esquecidos
São quimeras voadoras que viram mar
Rabiscos oníricos
De onde saltam seios macios, ressentidos,
Vivem no pequeno instante
Em que os cílios borboleteiam
No véu da madrugada

Ana Oliveira

O sonho do outro


Um dia descobriu que vivia outras vidas. Não que lhes faltasse tal merecimento, apenas não eram suas. De pequena, inconscientemente decidiu não viver a sua existência. Talvez por nunca ter nela encontrado sentido ou abraço. Desde então passou a emprestar seu vazio para lotar sonhos alheios, sem que jamais algum a pudesse preencher. Vivia em uma espécie de limbo. Um purgatório de almas emprestadas que, de início, fuga, mas que depois se tornara ofício. Certa vez, assim num piscar de olhos, fora banida daquele que, por um lapso de tempo e espaço, acreditou ser seu primeiro sonho. Ficou vagando como um depositário de desejos ambulante e fatigado, frequentando bares e becos em busca de vontades sem lar como um parasita largado à onírica sorte. Encontrou muitos deles e, ao passo em que fazia o que de melhor sabia, a mais terrível angústia lhe acometia as entranhas: não mais sonhar. Eis que um sentimento vestido do mais cruel caráter perfurara seu subconsciente e ali injetara generosas doses de ausência de ilusões. Dias e noites delirantes degustaram suas vísceras ardidas e magras em que já não distinguia o cheiro nem as cores das coisas. Tudo parecia amarelado e as vozes agiam tão distantes quanto os rostos desfocados. Queria um sonho! Poderia ser qualquer um. Jamais os havia escolhido tampouco subestimado. Cansada e aturdida, sem o único dom que lhe tornara útil, ingressou em uma longa viagem rumo ao lugar para onde vão todas as quimeras perdidas. E fora ali, na ante-sala da última gota de sangue, quase sem mais tempo ou sorte, que encontrou os sonhos que incansavelmente buscara, e eram todos seus.

Ana Oliveira

terça-feira, 7 de junho de 2016

Choro canção














Pega teu coração na mão
Aperta até esmagar essas palavras
Que vomitam ordem aos teus medos
Junta a coragem que te resta
E não diga mais que vai ser sempre assim,
Pedaços dilacerados pelo chão
E vontades pisadas pela garganta muda
Será que sorrir sem memória
É melhor que viver de lembranças?
Pior ainda é saber,
Que de morrer de amor ninguém morre
Que o trabalho dignifica o homem
Mas a obrigação destrói o artista
Junta teus cacos
E engole o álcool num choro só canção
De manhã, pede mais noite no quarto
Que a lua amanhece com fome
Pois o tempo é aquele que diz sim
E aquele que diz não.

Ana Oliveira

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O rubor da saudade



O êxito dos nossos desencontros
Provoca o desjejum da ausência
Que merece ficar à míngua de nós
Morrer vazia de obscenos abraços

Quanto à saudade, guarde para ela
O melhor canto da casa, da mala
Que de tão cheia de fome, avermelha
Face ao rubor da poesia que exala

Ao que toca o amor sem escudos
Um pouco de suspiro de seu bem
No corpo que esconde no escuro
A ânsia pelo tempo desse alguém


Ana Oliveira

quinta-feira, 19 de maio de 2016

¿Quién va...?




¿Quién puede compensar los dolores de la infancia?
¿Quién va a ablandar el pecho desgarrado por las noches de miedo y lloro?
¿Quién va a suportar convivir con sus fantasmas?
¿Quién va a querer compartir de la soledad?

Ya no puedo hacer lo mismo.

Mar Rubina

terça-feira, 17 de maio de 2016

Poeminha

Às vezes é o poema quem me escreve.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Alma desnuda


¡Razón! No enmudezca mi amor
¡Juicio! No acalle mi corazón
¡Pensamiento! Quieras solo sentir
Ayer vi mi alma desnuda
Hoy olvido tu nombre
Mañana no lo quiero perder

¡Deseo! No enloquezca mis sueños
¡Temblor! No gobierne mi cabeza
¡Nostalgia! Devuelva mis abrazos
Ayer olvidé tu nombre
Hoy no quiero perderme
Mañana veré tu alma desnuda

Ana Oliveira