terça-feira, 15 de março de 2016

Gaveta



Eu finjo que amo outras coisas para compensar a dor dos olhos que amanhecem diariamente sem saber dos teus. Invento felicidades que precisam ser numerosas para compensar o vazio de um único abraço. O sono que me contempla com tua ausência é o mesmo que se faz carrasco das horas e horas a mais que sobram para imaginar outro desfecho de nós, outro começo. O esforço que faço para disfarçar só não é maior que o ímpeto de sair voando para dentro do teu mundo, ainda que nele exista para mim, somente uma gaveta. Sei que as linhas da tua vida são menos tortas que as minhas, que passamos por promessas e enganos e que nosso tempo foi curto e ao revés. Cansei de trocar o fim pelos inícios, de me perguntar se ser nada é o começo de ser tudo ou se a verdade é a mistura do meu universo inventado e do teu ouro de tolo.

Ana Oliveira

quarta-feira, 9 de março de 2016

Trinta e cinco
















Não te ver
É mais que morrer
É jogar milho numa praça sem pombos
É o coração aos tombos
Esperando envelhecer

Não te ver
É dor de ferro em brasa
É o corte da asa
De um pássaro desenganado
É carne dilacerada

Não te ver
É menos que viver
É engolir o choro do samba
Num carnaval feito de quarta
É o cortejo do enterro

Pra que a colombina parta.

Anna Poulain







quinta-feira, 3 de março de 2016

Presságio





Corre menina!
Não vê que o amor passa
E que de morrer basta!?

Anna Poulain

A chuva dos olhos

Hoje, ao acordar, chovia. Não aquelas gotas cinza-gelo dos dias que lá fora, proclamam a chegada do outono, mas aqui dentro. Ao abrir os olhos, vi uma nuvem grudada no teto da minha casa e outra alojada no meio do meu peito. Então esperei que chovessem braços, que deles viessem mãos e delas surgissem afagos capazes de arrancar esse cansaço que a alma chama de saudade. Desejei que o chão revirado pela enxurrada se abrisse e raízes macias com cheiro de terra molhada subissem em minhas pernas, emaranhadas como um abraço deve ser, firme e recíproco. Mesmo com medo, ansiei que um vendaval com nome de moço chegasse, anunciado por uma brisa quente e que logo depois, fizesse meu coração levantar voo junto aos móveis e sonhos, num insano e mágico arrebatamento. Ao acordar, implorei ao vento para que abrisse meus olhos grudados pela chuva e pela dor de um sentir sujeito a morrer seco, sem palavras, desesperado e só. Porque até para maldizer o amor, tem que amar. 

Ana Oliveira

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Consagração


Os vícios feitos de açúcar
E a doce mudez que beija
Com olhos castanhos, nectáreos
Molhada, a terra festeja

Afável noite que imagina
Méleos encontros inesperados
E a tenra nudez vertical
Voyer de corpos desordenados

Nectarina floresta insólita
Que abriga seres invisíveis
Espiona sátiros e ninfas
Na flama da atração frenética

Ana Oliveira

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Horas nubladas, noites de verão

Nas horas nubladas do dia
Tão mais simples o entreter
Mas quando a lua assovia
Amarrada ao fio da saudade
Cheia de bruma e ardor
Calmamente a dor anuncia
O gosto proibido do amor

Nas noites silenciosas de verão
De sonhos e suspiros engolidos
Surgem delírios do teu rosto
Desenhado nas réstias da parede
Ilusões esgotadas de soluço
Nutrindo de medo o segredo
Que sem zelo morre de sede

Ana Oliveira

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O amor que era de vidro






















Já não sei mais escrever sobre nós
Há uma lacuna na pele e no peito
Há também uma memória escassa
Que se perde na casa dos sentidos
Que sem cheiro, abraço ou canção
Realçam as cores do esquecimento

É como uma fina xilogravura
Que a mão do tempo não apaga
Mas empalidece suas linhas

Escrever sobre nós ainda é
A tentativa de nos resguardar
Dessa lua viúva de boca amordaçada
Desse indócil acaso de pés acorrentados

Ana Oliveira


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Dor de Florbela

À espera da alma sem algema
Num caixote de memórias vivas
Abrem mão do frescor primaveril
Tanto o amor, quanto o poema

O coração sombrio da flor
Na noite cálida e amarela
Verseja a vontade do verso
Tal qual a dor de Florbela

O devir travestido de sina
Permeia entre sombra e solfejo
Fadado a acariciar o tempo
Algoz do próprio desejo