sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Passarinho
















Ando enlouquecida
De tanto escrever você
Não descanso meus olhos 
Porque pressinto 
Que teu voo está próximo
Sei que, sem teu abraço
Sou um vento inabitado 
Uma corrente que teima em vazar 
Pelos vãos dos teus dedos 
Para morar nas confusas 
Linhas da tua mão 
Minha alma anda furiosa 
Deseja ser as páginas acariciadas 
Do teu livro de cabeceira 
Pisa em teu peito perfumado 
Como que em folhas de outono 
Cravando garras e asas 
Na fantasia de mais algum instante 
Do teu beijo mordido, cuspido 
Ando cega e tonta pelos versos 
Sem saber se o nosso tempo 
Há de ser quando ou onde 
Escalo teu corpo com febre 
Espalhando pedaços de saudade 
E um rasto de amor imortal.

Ana Oliveira

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Vertente


Há dias em que deságuo. Ninguém vê ou supõe porque o estado líquido da gente é como uma cascata escondida no meio do mato selvagem. Essa que passeia silenciosa entre as pedras que abraçam e consolam sem saber por quê. São tão longos esses dias de chuva. Inundam o velho e cansado peito de um jeito, que nem mesmo o vento seco de verão é capaz de levar os fluídos para onde tudo é doce e permitido. Há poucos meses fiz um acordo com o universo: Que cada um de nós encoraje seus vícios e propósitos, desde que a angustiante chuva volte apenas em meados de maio.

Ana Oliveira

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Jardim onírico





















No mágico jardim clandestino
Escondidas pela nuvem cinza
Corpos sagrados dançam
O fogo mágico do destino
Olhadas pela doce mãe lua

Misturadas com a noite quente
Futuro infinito que ainda dorme
Face lânguida de sedução inocente
Entrelaçam pernas encantadas
Inatingível mulher de formas bravas

Produzem ecos seus pensamentos
Enquanto superam abalos e torturas
Evocam um amanhecer onírico
Ondulado em sua inexplicável leveza
De adorada e pagã profundeza

Ana Oliveira

Céu de dezembro




















Será que o céu de dezembro desentristece?
É sempre o último e por isso, um velho sábio
Palco das dores familiares, acertos, pesares 
Promete trazer as coisas perdidas, aquecidas 
Quem sabe até algo triste do azul melancolia 
Que também azuleja alguma tênue euforia

Será o delírio das chuvas de novembro?
Que arrasta os joelhos nas pedras da solidão 
Um jovem sem futuro, em sua magra finitude 
Que chora o dia e a noite em desencantos 
E canta para acalmar a fúria dos ventos 
Trazendo a nudez do trovão em prantos

Será que o céu infinito no fundo não é céu?
Teto que profana meses ilusoriamente criados, 
Feitos de fases que denunciam o passado 
De um anil que dedica-se a confundir o tempo
Talvez uma vastidão imponderável de sonhos 
Vivendo apenas de lua e vozes esquecidas 

Ana Oliveira

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Cor de sangue


Densa lágrima vermelha 
Suja o corpo de quem ama
Quando o coração chora
É o ventre quem derrama

Alma não manda nada
Vive com pouco vagando
Supõe enganar o tempo
Tolice de viver sangrando

Carne que vomita amor
Na calma que o dia obriga
Finge ver mais que uma cor
Na noite que a dor paralisa

Ana Oliveira

Livrarte





















Enquanto o amor fere e não consola,
A arte espera ansiosa pelo mergulho.
O que desenhar sobre um querer egoísta,
Hedonista, disfarçado de boas intenções?
Quem acha que ama, ama mesmo a si
Ama o que o outro lhe seduz, produz
Uma espécie de retrato de Dorian Gray,
Lindo, mas cheio de dolorosas feridas
A arte não te chicoteia, nem mutila
É a única maneira de mantermos as ilusões
Não te esquece nos feriados, nem nas dores
Não te rouba o viço e depois emudece
Se arrepender de um prazer é impossível
Basta não confundir com a eternidade da alma
Quem te ama quer você livre, mas perto, inteiro
Nada além disso, ousa-se chamar de amor
O amor disfarçado te enfraquece, trapaça
É um impulso reprimido que te envenena
A arte te faz brilhar e ser chama viva
É a poção mais sábia da redenção.

Ana Oliveira

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Noite no coração
















É noite no coração
Hora de contar as perdas
Enfileirar sofrimentos
E jogar na densa vastidão

O céu também chora
Ao ouvir o fraco lamento
Do que já nasce para morrer
Num amanhecer sangrento

A lua separa os mundos
Num intento desesperado
Deseja que o dia volte
Para o amor partir, acabado.

Ana Oliveira 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Por um fio













Coração, manchado de sangue
Encarcerado num sonho vazio
Colorido, selvagem e perverso
A espera sempre por um fio

Solidão, névoa recém chegada
Nasce com a noite entorpecida
Mãe terna que embala as lágrimas
Dos loucos sorrisos de despedida

Escuridão, demais para aguentar
Quer mergulhar num riacho frio
Voltar ao mágico tempo sem dor
Exausta caminhada do desvario

Ana Oliveira