segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Luz bailarina





















A taça manchada de euforia
No corpo que queima, marcado
Agora quebrada denuncia
O espelho do outro desejado

Guarda pra noite o cansaço
Embora nem mesmo um abraço
Rouba pra longe quando chega
Sonha de perto quando beija

O colo suado que afaga
Deixa que a escuridão decida
Se a vela bailarina apaga
Quando a lua chega, nascida

Ana Oliveira

Iniquidade














Quando se banaliza a dor e o amor
Parece que o mar fica sem sal
E o medo é um gosto normal

Quando se esquece de agradecer
Passa o tempo sem se ver e depois
Para voltar, já não há como arrumar

Quando se mente para crescer
Um dia vira o poder, nada que nasce
Manchado, foge de ser desonrado.

Ana Oliveira

Soneto das horas





















Já não há tanta pressa
Nem louca promessa
Que não seja urgente
Do que já nasce ardente

Se o relógio enlouquece
O amor é ainda pior prece
Então deixa que o querer
Decida com o vento correr

Tênue chega o encontro
Num segundo de confronto
Das agulhas que se colam

Cada ponteiro tem sua hora
Quieta e latente demora
Do preciso girar do tempo

Ana Oliveira

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Vida



















Num palco sem retorno
Figurante de sua própria vida
Sem palmas, nem vaias
Absolutamente equivocado
O delírio geme, arde e rasga

Que pedaço de alegria lhe pertence?
Quanto falta para pagar o preço?
Quem tapou o fim do túnel?
Tem lua no céu do inferno?
Tem amor no coração do acaso?

No fundo da gaveta emperrada
Que não arruma há anos
Procura receita para o impulso
Encontra um papel amarelado
Carcomido ensaio sobre a ilusão.

Ana Oliveira

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Nós

Não estou de aniversário
Mas preciso de presente
Do hoje, desse.

Não estou em viagem
Mas preciso de passagem

Não sou porta-bandeira
Mas preciso que perceba
Que carrego comigo
Uma vida inteira

Não estou de brincadeira
Mas ser o bobo da corte
Foi a maneira que encontrei

Um pouco de sorte
De mar e de norte
É onde estou e preciso

Abismo
Que sou quando pulo
No escuro que arrisco

Não estou pra reticências
Mas preciso de silêncio
Do agora, deste.

A&M

Lili


A espera sentada
Olhando a estrada
Sonhando com ela
Arranhando a janela

Mais cedo que chega
Melhor lhe receba
O afago na porta
Amor que se importa

O sentir verdadeiro
Demonstra no cheiro
No abraço comprido
Do beijo lambido

Ana Oliveira

Metade
















Metade do invento, cimento
Metade da areia, clareia
Metade da saudade, maldade
Metade da verdade, idade
Metade do mato, perdido
Metade do ato, vontade
Metade do bicho, feitiço
Metade da tarde, cidade
Metade da calma, comida
Metade do medo, caminho
Metade da dança, sozinho
Metade da alma, vendida
Metade da casa, partida
Metade do prato, consciência
Metade do jogo, urgência
Metade da cama, paciência
Metade do rosto, espelho
Metade da pressa, coelho
Metade da morte, façanha
Metade do corpo, entranha
Metade da mala, passagem
Metade da vida, viagem.

Ana Oliveira

Não ligue













Não espero, cansada
Nem mais nada tanto
Que tanto faz
Dar de cara ou a cara
A tapa, a outra
Face ao desencanto
De ser só mais uma
Mera indiferença
Que abale teu plano
Ou engano que atrapalha
A vida que para saída
Não há na bebida
Que embala e espalha
Na alma ferida

Não quero que ligue
Pra aquilo que sinto
No meio do peito
Teu leito perdido
Que finge querido
E sossega tua ânsia
Que esquece da culpa
Desculpa do ego
No apego do corpo
Silêncio preciso
Refém da vontade
Que finge saudade
Desejo que manda
Engôdo ou verdade
Que aguarda consolo.

Ana Oliveira