quinta-feira, 1 de março de 2018

Aos abalos e remendos

















Estou sempre a remendar a vida
Parece que meu lugar no mundo
É fora dele. À parte. Ao lado.
É isso! Meu lugar no mundo
É à margem desta vasta esfera
Onde mais vasto é o meu coração
Talvez o deserto seja o meu lugar
Inóspito, frio, imenso
O mesmo deserto que decerto vive
Dentro dessa imensidão de pessoas
Que se desencontram no aglomero
De seus pensamentos
É que o inferno somos nós
E o problema não é a multidão
Mas ter que fugir da gente
Somos perseguidores de nós
Talvez a escolha fosse parar de fugir
E voltar para o útero da terra
Ou buscar a gente n’alguma profundeza
Em alguma cova ancestral
Nesses lugares escuros, cheios de bichos
Nenhum mais cruel do que aqueles
Que carcomem a alma
Amiga, a vida só é aceitável na arte
De resto são libertamentos
Que só as lápides podem nos dar
A arte anda a contemplar
Transeuntes apressados
A procurar de dor
Amiga, ao contrário de morrer,
Viver dói todo dia.

Ana Oliveira

Referência imagem: https://bokja.wordpress.com/2013/04/08/migration-stories/

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