segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Poema da tarde

Tardes de gabinete
Papéis revoltosos
Jogados ao acaso
Dados mallarmenianos

Alma reticente
A espera do poema
Algemado e amarelo
Voa abruptamente

Corpo transcendente
Devorador de sóis
E de sorrisos de lua
Poesia aloucada e nua

20/11/2017

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O.olhador de mundos

Janelas esc ndidas
Uma "atenta" ao convite
Outra a vigiar o instante
Da retina que passa
De vidraça aberta
E vê dois tempos"
Dois mundos,
                      ohlepse me
A refletir 
                m o v i m e n t o s
Controversos
 x
Paradoxos
Expostos a duas
E ao mesmo tempo
A nenhuma lente
Dentro de um [caixote]
Abarrotado de memórias
Díspares, desfocadas
Lumes 
           encobertos
Sem dizer de si
Em duplo suspense...
Dois que viram três
Que viram um

domingo, 5 de novembro de 2017

Resenha do filme: Corazón de León


Una película encantadora, sensible y emocionante que habla de personas, sus miedos, secretos, alegrías y aflicciones. La historia central de “Corazón de León” pasase en Buenos Aires y su personaje principal es León, un hombre que tiene una particularidad, un “pequeño” problema que a los ojos de la sociedad es prácticamente gigante. Él es un arquitecto con una carrera de suceso, un buen amigo, un padre amoroso y una persona justa y honesta. 

Un día, León ve una mujer que parece muy enojada jugar un móvil en el suelo de un parque de la ciudad. Agarra el teléfono y llama el número registrado como “casa” y habla que encontró el aparato y que le gustaría devolver. Ocurre que él quedase muy interesado por la morocha y la invita para un encuentro inusitado. En el día marcado, juntamente con el susto de la mujer delante de la “estatura” de su benefactor, el encuentro acaba en un paseo de avión y un salto de paracaídas. En virtud de eso, la mujer quedase encantada y él también. Algunos días después ella llámalo y los dos salen quedándose cada vez más enamorados. Pasa que León tiene solo 1,36 de altura, lo que hace con que Ivana empiece a tener muchas dudas y miedos pues toda la gente mira León con prejuicio y se ríe de él. 

La película trae en su enredo, de una manera muy sensible, un asunto polémico: la diversidad. Trae también otros ejemplos de personas consideradas “minoría” por la sociedad como un personaje surdo, una secretaria negra y otra gorda. En muchos momentos muestra como sufren las personas que viven con alguna diferencia que a los malos ojos de una parte de la sociedad es considerado feo, un defecto o todavía, una aberración. 

Pero Ivana, enamorase de verdad por León y los dos empiezan a enamorar. A pesar de felices, la estatura de León es siempre un incómodo para las personas a su alrededor y esa situación tornase cada vez más insustentable para Ivana. Un día, ella cuenta lo que siente y él quedase muy herido mandándola que salga de su casa. Los dos pasan por días muy tristes y León sufre tanto a punto de admitir a su hijo que, en la verdad, no le gusta su condición y que siempre ensoñó ser un hombre alto y “normal”. Su hijo le dice que no hay ningún equivoco en su padre y que tiene mucho orgullo de él. Ivana, por su vez, sufre mucho, llora y se arrepiente de todo que habló pero León viaja y no contesta sus llamadas. Ella lo procura a todos los lugares donde finalmente descubre su destino y va a su encuentro. León la perdona y la aceita de vuelta. 

La lección principal de la película es que las diferencias no dicen nada sobre el carácter de un ser humano. Que se nosotros pudiésemos amar las personas por su buen corazón o sus calidades y no por cosas tan pequeñas como un color o una condición física diferente, haríamos del mundo un lugar mucho mejor. 

Chapecó, 29/05/2016

Análise do poema “Tem país na paisagem? ” de Marília Garcia


A poesia de Marília Garcia, da forma como ela mesma apresenta, parece ser parte de um momento único. Ela me remete logo a duas imagens: a do movimento e da fragmentação. O poema escrito parece dançar sobre as páginas da maneira como está disposto, com linhas irregulares e soltas, que ganham vida e parecem se deslocar por conta própria, ao longo do poema. Na oralidade também é possível identificar esse movimento, mas agora pelo ritmo e pela entonação que a poeta dá ao texto.

Minha impressão é de uma poesia orgânica, viva e, que talvez por trazer tanto o texto narrativo, quanto o descritivo, parece imitar o ritmo do nosso cotidiano, em que ora narramos, ora descrevemos e ora silenciamos. Os silêncios também aparecem fortemente na poesia de Marília. E a eles, atribuo um papel preponderante, uma vez que fragmentam as imagens de tal maneira que somos nós, os leitores, que preenchemos esses vazios. Marília parece silenciar para construir a próxima imagem, como num respiro, para poder pensar em suas experiências já que sua poesia, apesar de parecer simples, é uma engenhosa construção arquitetônica. 

A poeta parece ver poesia nas pequenas coisas, e assim como em Manuel de Barros, é o ínfimo, o infraordinário que lhe interessa. Ao narrar e descrever o experimento do “desenho das lágrimas” de Rose-Lynn Fisher, Marília nos presenteou com uma imagem que pode tranquilamente passar despercebida, mas que através de seu olhar, torna-se poética. 

Percebo, nas duas imagens, que cito anteriormente, uma íntima relação entre elas, já que no movimento, se colocado em câmera lenta, é possível perceber a fragmentação, quadro-a-quadro. Esse me parece ser o ritmo de Marília, uma série de movimentos que, ao se deslocarem, preenchem nosso imaginário com pequenas memórias fragmentadas, ou de vazios a serem preenchidos.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=CG-nTXqS9Ek&t=4958s

Cuidado, não leia! Um breve relato sobre o ensino de literatura.


É proibido ler. Talvez se a leitura nos fosse proibida (ou voltasse a ser) comeríamos livros. Comeríamos página a página de forma demorada degustando os “as” e os “bes”. Devoraríamos loucamente os machados e as clarices, depois vomitaríamos borboletas ciumentas e macabéas com finais felizes. 

Certamente existe uma razão para que eu comece meu texto assim. Já há algum tempo a falta de gosto pelos livros tem se tornado um tema recorrente no meio acadêmico e sobretudo, nas escolas de ensino básico. Face a essa realidade nasceu em mim, futura professora de literatura e uma amadora que se arrisca em invencionices literárias, o desejo de saber: Como apresentar um texto literário? Que elementos devo levar em conta na construção da apresentação desses textos? Que conceito de leitura deve estar na base da apresentação do texto literário? Como apresentar o texto, a história e a teoria? 

Para tentar desvendar esses mistérios que valem muito mais do que toda riqueza de João Romão, começo por pensar na primeira questão e arrisco compartilhar minha experiência como contadora de histórias na “Noite de Contos” do Sesc Chapecó no ano de 2017, em que tive a alegria de ser interventora. 

Minha missão, nessa ocasião, fora a de falar sobre o grande escritor brasileiro do Séc. XIX, Machado de Assis. Já havia dado aulas de literatura durante o estágio da faculdade, mas nunca tivera um desafio desse porte já que o público era completamente heterogêneo em todas as instâncias possíveis. Assim, decidi utilizar o maior número de linguagens para, com isso, ter uma chance de “acessar” o gosto pela literatura, no maior número de pessoas. Desse modo, parti de um episódio da minissérie Capitu, criada pela TV Globo, intitulada “Na varanda”, que não por acaso é o Capítulo XII do livro Dom Casmurro. Você deve estar se perguntando: mas não era uma noite de contos? Sim! Era..., mas como despertar a curiosidade dos participantes sem antes tocar em seus corações? Os contos de Machado são incríveis, mas, qual é sua obra mais conhecida? Porque não aproveitar o riquíssimo material disponível na internet para abrir as portas da percepção leitora dos que ali foram, possivelmente com tal objetivo? E foi assim. Logo no início encantaram-se com a revelação de Bentinho, descobrindo-se, pela voz do agregado da família, apaixonado por Capitu. Foram dez minutos do mais profundo silêncio e ao final, pude ouvir o mais demorado suspiro da noite, consequência do amor ali revelado, desnudado. 

Em seguida, valendo-me da emoção desperta pelas imagens, lhes apresentei o texto. Lemos juntos três capítulos da obra, “Na Varanda, Capitu e A inscrição” e, após, conversamos sobre o que lemos. Ali vieram excelentes comentários, dúvidas, críticas e posicionamentos, o que me instigou ao próximo passo: ler os contos de Machado! Assim, iniciamos a leitura do conto “A igreja do diabo” e qual não foi meu espanto ao perceber que muitos ali não sabiam que o autor fora contista, e dos bons! Finalmente lhes falei um pouco da vida do escritor e do contexto histórico da época, com o intuito de situar os leitores em relação ao tempo e espaço da narrativa ali vivida.

Quis relatar essa experiência porque a considero muito positiva e acredito ser possível trazê-la para a sala de aula em que, nesse espaço, complementaria com a produção de um texto, pelos alunos, de acordo com o gênero textual e discursivo estudados, e por fim, traçaria um paralelo entre uma metáfora que permitisse ler a obra e a teoria literária que a explicasse. Assim, penso ser razoável partir de uma imagem, ir para o texto, depois para a história e por último, para a teoria. 

Como segundo exercício de ensino de leitura, baseada nas aulas de literatura e em experiências vividas, creio que os elementos que devo levar em conta na construção da apresentação dos textos literários são a relação entre o estudante e o texto, em que o tempo do texto seja para ele o presente, uma vez que essa relação o afeta proporcionando-lhe experiências e vivências de outros mundos, de ser o outro. Ou seja, a resposta para a próxima questão a que me referi no início dessa conversa: a relação entre livro e leitor, estudante e texto. No texto “Como se lê”, Daniel Link (1959) chama essa relação de “sujeito e objeto”, nele, diz que “o sujeito lê o objeto” e o que chamamos de leitura é “apenas a correlação de duas séries de sentido, uma inerente ao objeto e outra inerente ao sujeito”. Assim, para ele, ao lermos, “o sentido, claro, desloca-se ao logo da série” em que “devemos passar da relação meramente imaginária com o texto, ao simbólico, ou seja, redenominar, cortar, escandir, pontuar de novo a sequência”. Isso significa dizer, grosso modo, que leitura é relação. 

Ora, se leitura é relação, como devemos apresentar os textos de maneira que ela, de fato, aconteça? Essa pergunta abre as portas para as respostas do último questionamento feito, sobre a sequência de apresentação de textos, seja partindo dele próprio, da história ou da teoria. Ao longo das aulas de literatura posso dizer que isso ficou muito claro e que partir do texto, será para mim, sempre que possível, o pontapé inicial. Aprecio imensamente a maneira como o escritor João Cézar de Castro Rocha (2006) traça esse percurso em seu texto Ciúme e dúvida póstuma - Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que parte da obra, falando da força dos personagens e daquela que, para ele é a temática central da narrativa, o ciúme. Depois para o autor e sua vida, uma vez que o ciúme é tema recorrente ao longo de sua obra e por último, usa a metáfora literária do “ciúme” para explicar a teoria onde, segundo Castro Rocha, “a literatura também não dispõe de “provas”, não expõe “evidências”; como o ciúme, a literatura é um discurso que se alimenta da dúvida, da impossibilidade de conhecer a “verdade” última do mundo. ” 

Assim, a literatura é como a vida, em que só se conhece um homem, de verdade, através das coisas que ele esconde. E é esse mistério, essa lacuna entre as palavras que devemos instigar nossos alunos a querer desvendar. É estritamente proibido, proibir a imaginação!

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tristeza, a inoperatividade da alma


Hoje é um dia em que eu estou especialmente triste pela humanidade, humanidade que não olha para os lados, só olha o próprio umbigo, humanidade hipócrita que olha uma criança africana e diz: que dó, façam alguma coisa por ela! Mas passa por cima de um gato ou cachorro de rua. Humanidade que diz: salvem as baleias! Mas come animais torturados em fazendas e frigoríficos. Gente que maltrata animais, mas que compra Pets por uma fortuna, gente que acha gay normal, mas meu filho não! Gente que não é racista, mas atravessa a rua quando vai encontrar um negro.

Ando chorando todos os dias, tudo isso me afeta demais, as minhas questões andam tão pequenas sabe...tudo que reclamo parece bobagem perto de um cachorro doente e com fome, uma criança maltratada e a ganância sem limite e sem janela para o mundo. Eu queria fortemente poder ignorar tudo isso e ser feliz no meu mundinho perfeito, mas uma vez visto, nunca mais se pode parar. Tenho me fechado ainda mais, é verdade, mas penso que é um processo mesmo, de conseguir assimilar tudo isso para depois reagir, nesse momento me sinto imprestável, impotente diante das injustiças, queria poder fazer algo maior, algo realmente significativo, mas agora tenho ainda minhas pequenas e insignificantes questões.

Acho que a humanidade não vai longe não. Adianta nada estar conectada com o cosmos, blá, blá, blá e não olhar ao redor ou pior, olhar ao redor e achar que tudo faz parte do equilíbrio do universo. Sinceramente esse papo de equilíbrio do cosmos é coisa fantasiosa pra mim, pois saio da porta de casa e vejo o vizinho fumando no corredor, atravesso a rua e vejo um idoso procurando lixo pra sobreviver, dobro o quarteirão e vejo um caminhão cheio de animais chorando e gritando por liberdade, chego à faculdade e vejo gente que não entra no mesmo elevador de um haitiano...

Olha, se isso é ver o mundo de maneira pequena e limitada, não sei mais qual é a dimensão das coisas. E os meus olhos não são melhores porque enxergam, nem piores porque questionam, são apenas duas janelas abertas cuja tristeza tem tornado inoperantes. 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

No meio do caminho de Drummond


No caminho de Drummond provavelmente houve muitas pedras. A pedra primeira guerra mundial já presa em suas sandálias infantis, aos doze anos. A pedra solidão, dita e redita em seus poemas, a pedra Deus e a dura sina de ora crer, ora duvidar. A pedra “um mineiro no Rio de Janeiro” e tantas outras pedras de tantos outros conflitos bélicos, quentes ou frios, vividos pelo poeta no Séc. XX.

Embora o poema No meio do caminho tenha sido renegado pela crítica ao dizerem que “aquilo não era poesia e sim uma provocação”, ou ainda que eram “versos pobres e repetitivos” a pedra para Drummond não fora apenas essa ou aquela conjectura leviana. Esta é a pedra drummondiana do obstáculo, seja dos seus próprios conflitos com o mundo e a sociedade em que viveu, seja no próprio – e talvez intencional – poema obstáculo, criado exatamente para esse fim.

O poema fora escrito em 1928, e Drummond, ao escrevê-lo, parece ter adivinhado o futuro nebuloso do planeta, como um profeta da pedra, um “bruxo do obstáculo” já que pouco depois estouraria a segunda grande guerra e em seguida, os duros anos de ditadura no Brasil. Já escrito, o poema parece anunciar um tempo de dor, tempo das retinas fatigadas pela brutalidade das torturas impostas e as feridas expostas de seus companheiros políticos, seus amigos, cujo o único pecado fora acreditar mais na flor do que no asfalto.

Assim como o poeta, também temos nossas pedras. Nossos impedimentos não são diferentes dos de Carlos. Somos Carlos, Marias, Reginas e Pedros incompreendidos, renegados, subestimados. E assim como ele, o Carlos poeta, na maioria das vezes, jamais esqueceremos.

Chapecó, 28/09/2017.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Três perdidos numa manhã suja





















Nenhuma poesia na noite
percorrida entre absurdos e verdades 
E ela no entanto, estava ali,
no dorso da retina empoeirada 
Seis olhos mal dormidos,
sem lua, sem medo ou saudades 
Tudo feito pra ser agora,
efêmera tal qual poeira no asfalto 
E a palavra?
Vazia espera da garganta seca,
ardida, arranhada 
Nenhuma poesia no pôr-do-sol
que não foi visto, mas bebido
E que por isso, mesmo sem querer,
inspirou tosses vertiginosas 
De sangria poética,
arritmia lírica de três corações perdidos 
Numa manhã suja.

Ana Oliveira

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ensaio: Cruz e Souza, Baudelaire e a melancolia


       Descobri que sofro de melancolia tal qual João Cabral de Melo Neto. A palavra melancholia originária do latim é também, segundo o dicionário Aulete, uma “tristeza sem causa definida, por vezes acompanhada de uma saudade difusa”. Na literatura, muito já foi dito sobre essa saudade derramada, tanto em prosa quanto em versos, parece que tal acometimento é quase lugar comum nas histórias de amor (e de dor) que moram nos livros. Em seu texto “A melancolia na literatura, ” o escritor Moacir Scliar dialoga acerca das afinidades entre literatura e medicina e dessa análise surge a melancolia como sintoma da sociedade moderna. De acordo com Scliar:

"O começo da modernidade é uma época de enormes transformações sociais, econômicas, culturais. É a época dos descobrimentos marítimos, a época em que o comércio mundial se acelera, num prenúncio da globalização; uma época de progressos científicos, de desenvolvimento da arte, mas também de busca desenfreada de riqueza e de prazer: esta é a época em que surge a bolsa de valores e em que a sífilis se dissemina pela Europa. Época de luxo e de excessos, uma época que espíritos superiores miravam com desgosto – com melancolia. E a melancolia torna-se, na arte, um tema constante." (SCLIAR, 2009, p.6)

         A modernidade e o simbolismo são questões que aproximam o poeta catarinense Cruz e Souza do francês Charles Baudelaire, embora muitos de seus escritos sejam esteticamente marcados pelo rigor parnasiano.  Segundo Davi Arrigucci Jr. (1999) “como no caso de Baudelaire – o principal farol para os simbolistas -, o lastro de padrões técnicos conservadores não impede o avanço artístico de Cruz e Souza, que transforma a herança parnasiana, buscando outros afins. ” Arrigucci vai além e define o simbolismo como:
Algo que caminha não decerto no sentido da arte como pesquisa dos realistas e impressionistas (...), mas no da exploração da transcendência simbolista, de uma realidade nova, descoberta por imagens insólitas, (...) uma exigência interna da nova matéria que o artista tem diante dos olhos e se dá em articulação com a sondagem de esferas enigmáticas da realidade, que ampliam o campo de percepção estética e geram uma nova sensibilidade”.  (Arrigucci, 1999, pg.4)

          Isto posto, percebe-se que no poema abaixo, “Olhos do Sonho”, Cruz e Souza agoniza na incerteza simbolista, na ambivalência de olhar e ao mesmo tempo ser olhado, de um sonambulismo que revela o intervalo entre o sonho e a realidade, a vida e a morte, esse duplo que atormenta o eu lírico fazendo-o sentir-se caça, presa fácil, desses olhos estranhos que vigiam e que parecem querem impedi-lo de acordar do pesadelo da sua existência,

Certa noite soturna, solitária,
Vi uns olhos estranhos que surgiam
Do fundo horror da terra funerária
Onde as visões sonâmbulas dormiam...

         Reparo que, embora a maneira de olhar dos dois poetas seja distinta, na qual Baudelaire age como um “flâneur”, ao olhar de fora, como um observador e por sua vez, Cruz e Souza esteja inserido nesse “olhar o mundo de fora e de dentro”, o sentimento desses olhares é o mesmo: a melancolia. Tal percepção pode ser observada também na experiência de Baudelaire, cujo o olhar revela a angústia de não conseguir acordar desse pesadelo que é a modernidade, de não conseguir fazer experiência com essa nova realidade, de uma existência que também lhe fora cara. E isso pode ser visto em seu “Sonho Parisiense”,
Abrindo os olhos de chama
Vi o horror dessa mansarda,
E senti, entrando na alma,
Das lides ponta danada;

         Por essa razão que, torna-se possível, dado a sua contemporaneidade e do ofício comum a ambos, que a melancolia, esse olhar melancólico, também lhes tenha sido objeto de partilha. Para Bernd Witte (2017), o poeta francês Baudelaire "é o inventor da palavra e da coisa, la modernité." Para o poeta, modernidade seria "esta eterna volatização dos fenômenos", e ao meu ver, essa volatização, se levada ao seu significado literal, confirma o mal-estar de Baudelaire e Cruz e Souza, um pela inconstância de uma sociedade que lhe causou estranhamento e, consequentemente, falta de identificação, outro, pelas rupturas de um país pós-escravocrata e pelo preconceito racial. Uma melancolia sentida através de um eu lírico que vê, sofre, tenta compreender essa nova realidade, inserir-se nela e ao mesmo tempo negá-la, como muito bem exposto por Arrigucci Jr.:

"O moderno tem o tom da infelicidade, e o traço satânico espelhar em sua identificação do negativo e da negatividade real da situação social alijada pelo poeta de seu mundo sonhado. Nele também, por certo, está a marca pessoal atormentada, ao estilo de Cruz e Souza, capaz de incorporar a tradição, e ainda moldar de novo o drama do próprio artista com imagens inéditas, convulsas, tensionadas para uma inesperada direção, cheia de complexas implicações. ” (Arrigucci, 1999, pg.6)

          Ao ler o trecho de Arrigucci, fica impossível, para mim, não associar a obra de Baudelaire e Cruz e Souza às suas vidas dramáticas e conturbadas, fatos cujo conhecimento é comum e quase escolar. Cruz e Souza, filho dos escravos alforriados, adotado e educado no seio da família do “dono” de seus pais, teve quatro filhos, todos mortos prematuramente, mesmo sendo chamado, em sua época, de Cisne Negro, seguiu trabalhando como mão-de-obra barata em ferrovias em que acaba morrendo, aos 37 anos, de tuberculose e seu corpo transportado em um vagão destinado a transporte de gado (Domeneck, 2005). Por sua, e não menos trágica vez, Baudelaire ficou órfão de pai aos seis anos de idade, teve uma relação conturbada com o padrasto, o qual lhe enviou de barco às Índias aos 20 anos. De volta à França gastou com a vida boêmia toda herança deixada por seu pai, passando a viver até a morte em condições financeiras precárias. Passou seus últimos dias atormentado por doenças nervosas, foi vítima de uma paralisia geral e morreu nos braços de sua mãe aos 46 anos.
        Para Sigmund Freud (1915) “a melancolia pode apresentar diversas formas clínicas e seus traços mentais característicos são: desânimo profundamente penoso, pouco ou nenhum interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de atividades, além de uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão em autorrecriminação que pode levar a uma expectativa delirante de punição. ” Cito Freud, e seu conceito fundador da melancolia como psicopatologia, para compreender mais uma vez, e por hora, última, a poesia de Cruz e Souza e Charles Baudelaire. Em grande parte de seus olhares e dizeres, os poetas tendem a um arrefecimento, a um viver pesaroso e às temáticas funestas de uma vida fragmentada e deslocada, entre caveiras que foram risos e musas loucas e doentes, onde a melancolia literária confunde-se com a patologia freudiana, assim como para Scliar (2009), medicina e literatura estreitam caminhos.




Referências bibliográficas:

Acessado em 14/06/2017: http://www.aulete.com.br/melancolia 
ARRIGUCCI JÚNIOR, Davi. “A noite de Cruz e Souza”. InOutros Achados e Perdidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.165-184. 
BAUDELAIRE, C. As flores do Mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. 
CRUZ E SOUSA, João da. Cruz e Sousa: obra completa. Organização Andrade Muricy; atualização Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. 
FREUD, S. (1917 [1915]). Luto e Melancolia. in Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago.
SCLIAR, Moacir. A melancolia na literatura, Cad. Bras. Saúde Mental, Vol 1, no 1, jan-abr. 2009 (CD-ROM) 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Una estrella llamada Violeta

Reseña acerca de la vida de Violeta Parra basada en la película “Violeta se fue a los cielos”
Por Ana Oliveira

   Violeta del Carmen Parra Sandoval fue uma mujer a la frente de su tiempo. Nacida a principios del siglo XX, una época muy difícil para las mujeres, en una sociedad machista y prejuisiosa, hecho que jamás fue um  impedimiento para su vida y sus acciones. Mismo delante de todas las dificultades, dejó un gran legado artístico a la humanidad. Compositora, cantora, artística plástica y ceramista, Violeta es considerada la más important folclorista del Chile y la precursora de la música popular chilena. 

   Cuando niña, tuvo una vida muy pobre, su padre era profesor de música y su madre, campesina y tenía cinco hermanos, a quién siempre ayudó a cuidar mientras sus padres trabajavan. Al morir, su padre le dejó una única herenza, una guitarra y fue con ella que esa grand mujer revolucionó el mundo. Con su heranza, pasó a cantar y trabajar con sus hermanos en bares y fue así que empezó a los nueve años su carrera artística. Aun muy jóven, Violeta tuvo dos hijos, Isabel y Ángel, frutos de su primero matrimonio. Sus hijos eran muy talentosos y con el tiempo, pasaran a presentarse con su madre, cantando. Algunos años después, ella se casó novamiente y de esa unión nacieron dos hijas, Carmen y Rosita. Rosita fatalmente falleció dos años después de su nacimiento, hecho que tal vez, haya sido la motivación inicial de una depresión que la cantora jamás pudiera curarse.

   La Parra tenía un caráter inquieto y lleno de distraciones, lo que se convertía en un paradojo una vez que era una madre muy cuidadosa y amable, entretanto no se acomodaba al ideal convencional de esposa. En virtud de eso, su matrimonio se acabó, pero un poco antes del final, su esposo y militante del Partido Comunista la inició en la actividad política y eso fue un marco en su vida, pues pasó a ser una activista cuyo trabajo fue la base para el desarrollo del movimiento estético, musical y político llamado La Nueva Canción Chilena. Mismo triste por la muerte de su hija, Violeta une las fuerzas, continua su carrera y estimulada por su hermano Nicanor, asume con personalidad propia la defensa de la auténtica música chilena en contra de los estereótipos que hasta ese momento se manejaban. En vista de eso, pasa a hacer una vasta pesquisa sobre las canciones tradicionales, sobre todo del campo chileno y descubre los valores de la identidad nacional, cosa que ningún otro artista lo había hecho antes. Allá de la música, ella poseía otros talentos y fue la primera latinoamericana en exponer una série de sus trabajos como artista plástica en el Museo del Louvre. También escribió un libro de poesía llamado Poesía Popular de Los Andes y viajó a muchos países donde tuvo éxito, por ejemplo, en Europa, hecho inédito para un artista chileno. 

   En este periodo conoció el gran amor de su vida, que según cuenta la película dedicada a ella, “Violeta se fue a los cielos”, el antropólogo y músico suizo Gilbert Favre, fue la inspiración de sus más importantes canciones de amor y desamor. Sin embargo, poco tiempo después de conocer y vivir con su amor, Parra regresió a Chile. Muy abalada con el rompimiento de su historia, juntó las fuerzas y construyó junto a sus hijos, una grande casa con el objetivo de convertirla en un important centro de cultura folclórica, pero la respuesta de la gente no fue muy positiva y pocas fueran las personas que le dieron apoyo. Eso la dejó aun más depresiva y mismo siendo una artista mundialmente reconocida, curiosamente eso fue un de los problables motivos de su muerte, pues el amor por su tierra y su pueblo era mayor que cualquier ambición o deseo de suceso. 

   El hecho es que, desde la muerte precoz de su hija, Violeta no consiguió recuperarse, sumado a la decepción con la pérdida de su amor y tras lo intento falido de su centro cultural, Violeta se suicidó a los 49 años. Hablase que la canción “Gracias a la vida” podría haber sido un reflejo de su estado de ánimo depresivo y tal vez, una canción de despedida.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Encruzilhada















já amei tanto e parece tão pouco
tenho medo de não amar do jeito que já amei
e vontade de amar de outro jeito também
o amor é um velho conhecido
que as vezes vira um rosto sem nome
não sei se ainda quero amar
mas morro só de pensar que não

Ana Oliveira

Novidade!


Queridxos que acompanham meus escritos!

A partir de hoje deixarei aqui registrados outros textos que venho desenvolvendo ao longo dos anos e gostaria de começar a compartilhar com vocês. São resenhas, ensaios e críticas literárias sobre os livros que leio. Espero que através deles possa aguçar sua vontade de lê-los.

Afinal, a literatura nada mais é além disso: o mundo!

Beijos desordenados, mas ainda assim, beijos... ❤





domingo, 30 de abril de 2017

Nostalgie











Se fosse meu coração
Que falasse...
Seria trancafiado
Como louco
A taconear em pisos frios
De calabouços andaluzes
A telegrafia da terra
Seca e sovada
Feita do devir do barro
Em lágrimas
E depois pó

Fosse ele
E não a mente
De tão insano
Seria santo
Em duplo
A olhar as coisas
E dizê-las assim,
Sem trapacear
Num querer senil

E de abrir a boca
O coração cairia
Por terra e medo
Pisoteado pelo senso
Julgado e condenado
À esperteza
Disfarçada de bondade
Prato cheio, presa fácil
De língua cortada

Que de agora
Pra depois
Eu me começo
A pensar
Que se o coração
É quem dissesse
Era a mente
Quem amasse...


Jasmine Désir
(Barcelona, 1917)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Para os bons dias mortos

nosso bom dia que morreu
ao cair da tarde
levou também os cafés
e os ovos mexidos
levou a cara amassada
das noites que partiram
sem aviso prévio
levou o abraço da manhã
que não se sabia última
e por isso não tivera
um jeito de adeus
levou também os medos
mas trouxe as angústias
que são medos tristes
levou a canção das terças
sobre ficar bem pra cuidar mais
e o almoço dos domingos
atrasado mas cheio de risos
o bom dia que era nosso
agora vive no vazio das horas
que levaram os sonhos
as madrugadas e a paz
de estar em par

Ana Oliveira

segunda-feira, 13 de março de 2017

Beijo-poema

Roubo tuas palavras
E as penduro em meus lábios
Não suporto mesmo é não sentir
Esse teu beijo-poema
Nem saber como é viver sem
Aquele que desordena
Mas mantém a alma acordada

Ana Oliveira


sexta-feira, 10 de março de 2017

Cuanto a los besos

Robo las palabras tuyas
Y las colgo en mis lábios
No soporto mismo es no sentir
Eso beso bienvenido
Ni saber como es vivir sin
Aquel que desordena
Pero mantiene la alma despierta

Cuanto al dolor


Robo las palabras tuyas
Y las colgo en mis lábios
No soporto mismo es no sentir
Ese dolor bienvenido
De saber como es vivir sin
Aquella que despedaza
Pero mantiene la alma despierta

Las mariposas

(Tradução)

Roubo suas palavras
E as penduro em meus lábios
Não suporto mesmo é não sentir
Essa dor bem-vida
De saber como é viver sem
Aquela que dilacera
Mas mantém a alma acordada

quinta-feira, 9 de março de 2017

Cadáver poético

a poesia é a dissecação da alma
redenção mas também maldição
acomete o poeta de palavras
que adoece ao não cuspi-las
é a cura do verbo
e a ruína da carne

Anna Poulain

Rodopiando solidão


Se vive morta
De saudade
A bailarina
Dança dentro do quadro

Rodopiando solidão
De ponta em ponta
Desaponta o ritmo
Da multidão 

Sabe que a dor 
Sempre aparece
Pra cortar dedos e laços 

Por isso dança 
Se joga pra fora do quadro
E do coração

Ana Oliveira

A volta do flamingo

Há tantas gaiolas
Apáticas, vulneráveis
Azedas de amargar
Forjadas a fel
Feitas pra arrasar o tempo
Estragar a festa
Misturadas com o vazio
Impotente e surdo
Carcomido de inveja
Da vida que deságua
Pronta para teimar
E levar incertezas
Pra longe da gente
Há tantos medos
Disfarçados de vento
Levam a alma
De asas já cortadas
Cobertas pelo véu da noite
Que o flamingo traz de volta
Pois alma não se ajoelha
Volta de manhã
Pra fazer o café

Ana Oliveira

quinta-feira, 2 de março de 2017

A borboleta branca

Te sinto desordenado. Por tudo que deve estar vivendo neste instante pássaro. Sem gaiola nem amarras, sem convenções nem exigências. Te vejo no olho de um ciclone chamado vida tentando agarrar as coisas que aos poucos te deixaram, que aos poucos se perderam, como se ao mesmo tempo quisesse abraçar e soltar. Eu acho tudo isso lindo e louvo! Só que no meio dessa bagunça ainda não consegui me ver. E tenho meu fluxo. Tenho meu porto cá bem definido. Eu até gosto do estrago, mas o do amor vivido, consumido, das mordidas e joelhos arranhados. É nesse poço que me jogo. Do outro, aquele sem fundo, prefiro o sossego. Porque solidão é sossegar. Solidão é como o voo da borboleta branca que de tão imensa vira pássaro só pra voar pra mais longe. Ainda não te sinto solidão. Te vejo como uma gaveta amontoada de memórias que querem ser guardadas, só que ainda não. Precisam da vastidão do tempo e de mais espaço. E talvez de outras histórias, não para substituir, mas para serem vividas. Te vejo perdido e não quero ser a engrenagem que falta, mas a vela que ilumina.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

El poema llamado carne

No me mandes besos
Mándame sellos
Para que te devuelva cartas
Sucias, com aroma de pele
Arañada, escupida

No me mandes besos
Pero cabellos arrancados
Comidos por las uñas
Y dientes tatuados en el cuerpo
Sin ninguma censura

No me mandes besos
Ordenes al deseo
Que haga las valijas
Y sumerja en el poema
Que libre, llamase carne

Mar Rubina

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Tempo para jogar dentro


Quero jogar tudo fora
O tempo, a roupa
A louca liberdade
De ser só um
E ainda mais livre
Ao virar dois
Quero ter menos
Jeito de ventania
Para ser brisa
Ao teu lado
Que é colo e canção
Que a solidão
Jogue tudo fora
Só para depois
Catar cada pedaço
Colar em cada abraço
O segredo do teu riso
Que também é meu
E que depois emudece
Porque o beijo cala
E a carne exala o silêncio
Da nossa febre em festa
Quero jogar tudo fora
Pra viver dentro de você


Ana Oliveira

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Doce minimalismo






















O quintal do universo
Que de tão cheio
Esqueceu-se
Das miúdas
E sufocadas pétalas
Que agora vivem
Em pequenos casulos
Graças aos dedos
Maternos e delicados
Da filha da natureza
Neta do destino
Que acolhe sonhos
Em minúsculos
Vasilhames etéreos

(Para Carol e seu lindo Jardim da Mata)

Ana Oliveira

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Metade

Esses pedaços
Um pouco meus,
Um pouco seus
Andando por aí
Presos em outros
Assim também, remendados
Apressados em esquecer
Feito estátua corroída
Pelo tempo
Dessa vida
Um tanto minha
Um tanto sua
Assim, dividida
Fadados a viver

Ana Oliveira

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Capitu


Que olhos tristes
Esses que de ressaca
Morrem todos os dias
À beira do amar
Feitos de abismo
Cansados de tanto ver
O sentir refletido
Na prisão do querer
Que memória vive
No olhar alheio
Ao instante alvoroçado
Da onda que matou o anseio?

Ana Oliveira

Gosto de sangue





















Nenhum amor passa
Alheio ao gosto do sangue
Da boca mordida
Ou da tarde partida

Nenhum beijo nasce
Sem antes queimar a pele
Feito sol ardido
Ou fogo invadido

Nenhum sonho morre
A caminho do abismo
Mas de metade outono,
Metade abandono

Ana Oliveira