quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Apatia


Que amor é esse sombrio
Desfigurado e mudo
Morador de um coração
Apático e cansado
Fadado a viver trancado
Dentro do esquecimento
E fora das lembranças
Cada dia mais carcomidas
Distantes do pensamento

Que viver é esse que sem
Amor urgente e aquecido
Descompassa saudoso
Da carne que chora
Enganada e doente
De querer ser abrigo
Daquilo que finge o dia
E clama à noite que volte
Ao erro mais indecente
E feliz que a covardia vivera

Ana Oliveira

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Acaso e destino

Vira do avesso
Me alma por dentro
Segue teu caminho
Que o mundo já te quer...
Que a vida é mulher
Com outro destino

Fica bem por perto
Me abraça de longe
Pega esse teu astro
Que agora é de ascender
Que o medo é pra perder
No meio do acaso

E minhas horas loucas
Eu te entregarei
E te cantarei
No acaso e destino

Pede que eu te encontro
Me beija num canto
Olha esse teu cheiro
Que eu quero é me render
Que agora é pra valer
Já foi o vazio

Deita aqui do lado
Me conta uma história
Diz que eu tenho um jeito
De quem sabe arder
Que eu tento te dizer
Que o medo acabou

Letra e música: Ana Oliveira

De jeito maneira

Não adianta sumir e voltar sem aviso
Querendo ser ar
Não adianta morrer aqui dentro o juízo
Já não quer amar

Pois pense bem que o amor não aceita a ruína
Desse teu gostar
E agora dança sozinho comigo vivendo,
Pra não mais voltar

Eu não quero mais
Que você me queira
Eu não quero mais
De jeito maneira

Não adianta chorar e ser mais que um amigo
Já não tem razão
Olha meu bem que isso pode ser mesmo um castigo
Pro seu coração

Não adianta sorrir e dizer coisas lindas
Pra me enganar
Que desse jeito meu bem você só mesmo engana
O teu desamar

Letra e música: Ana Oliveira

Instruções para esquecer

Para esquecer alguém de quem se gosta muito, e não quer se esquecer, não basta não querer. Há de se fazer um esforço semelhante ao levantamento de dois ou dez elefantes, simultaneamente. Se for uma formiga, substitua o elefante por besouros ou vagalumes obesos. 
Para deslembrar deve-se sentar em um lugar usado para pensar. É imprescindível que esteja acompanhado de uma xícara de café e, para os fumantes, de um cigarro. Comece então a refletir e responda se a pessoa a ser esquecida faria a mesma força, que envolve elefantes, besouros e vagalumes obesos, para também te desquerer. Se a resposta for sim, desista imediatamente de esquecer. No entanto, se o pensamento titubear, enroscado no emaranhado dos cabelos da dúvida, passe para a próxima etapa: a execução.
Uma das técnicas que poderá funcionar é a da distração. Distraia-se com a lua amarela e gigante que só voltará em meio século ou limpando folha por folha das mais de trinta plantas do jardim, porém, lembre-se de passar longe das rosas vermelhas. Aconselha-se recitar algum poema, que pode ser qualquer um que não fale de amor. Saudade também é perigoso. Em hipótese alguma distraia-se abrindo velhas caixas, relendo bilhetes, dedicatórias, nem ouça aquele disco sobre terças-feiras ou cavalos.
É recomendável que se ande normalmente pela rua, ora olhando para cima, ora para o chão e, em algumas vezes, para um letreiro ou vitrine. Isso evitará que se encontre um rosto, um cheiro ou uma voz. É também salutar que não se repita situações as quais possam comprometer o trabalho até agora empreendido, como as Madeleines escondidas em cafés na cama, discos de bolero ou a releitura daquele livro emprestado que jamais será devolvido sob pena de, fatalmente, estragar o esquecimento. E lembre-se, para esquecer procure ter a certeza loucamente absoluta de que também já fora esquecido.


Ps: Instruções não comprovadas cientificamente, em fase de testes. Na dúvida, desconsidere-as.

Ana Oliveira

domingo, 23 de outubro de 2016

Vinte e três















Tua fraqueza agora esbanja adeuses
Acena ao definitivo, ocupada do mundo
Como um rio sem visitas, potável
Retirada e perene, alma intransitável
Das coisas que apagam os nomes
Dos nomes que perdem pessoas
Tua sina de lembrança esvaziada
Peregrina feliz, desfeita em poeira fina.⁠⁠⁠⁠

Ana Oliveira

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Doejar português















Nenhum mar vive atrás do véu
Mortalha da escuridão do dia
Nada se move, tudo está ao léu
No gládio que o cinza pressagia

Num prenúncio cego aos gritos
Jaz sentada na pedra, a dor
Renegada e aquém do Bojador
A rastejar em areias de vidro

Na hora mais perigosa do instante
Inquieta-se a esfíngica solidão
Descoberta e nua a lamber o chão
Do meio sonho forjado a sangue

Ana Oliveira

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Sonho morto














No sonho que não era meu
Metade de você apareceu
Sangrando na cabeça de outro
Teu corpo a sorrir-me morto

No devaneio também não era eu
Mas um alterego a dançar febril
Num vestido de festa fúnebre
A comemorar o luto que morreu

Nem dor, nem amor, nem mágoa
De um sem sentir que o véu afaga
Restos de ti que hoje é névoa
Jaz a brilhar no coração do nada

Ana Oliveira

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A(s)sombra





















Sempre há você em mim,
Mesmo não havendo
Disfarce para a sombra
De dúvidas que assombra
Meu coração ao meio-dia
Da tua alma que grita
Por um pouco mais de ar
Pra ânsia do meu peito
Asmático destemido amar
Que mesmo já sem chance
Atropelou o destino a tempo
Comeu o vento pelas bordas
E depois de você visitou
O relento de qualquer outro
Sem ousar ser de mais
Ninguém.

Ana Oliveira

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Inteira(mente)

Preciso saber da tua vida
Mesmo que da minha repartida
Mesmo que de longe nada queira
Pensa que de ti serei inteira

Se vale um coração que mente
Toma que o meu finge o que sente
Sorri para o dia ser engolido
Pra noite contar que tinha mentido

Ana Oliveira

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Madeleine




















Ando por aí quase sem mim
Querendo abraçar saudades
Num caminho feito de partidas
Deixo o mar de lágrimas vividas

Ando também quase sem ti
Com olhos cheios de ausência
Regresso a um eu que era teu
Que do ontem, o hoje comeu

Desse amor que não pode ser
Quero dele que viva em alguém
Como uma Madeleine mordida
Que no devir não fora esquecida

Ana Oliveira

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O beijo













De tão ausente e distante
Sem mais textura, nem tempo
Dormindo frio ao relento
Matou de espera o amante

Assim com a pele rasgada
Sentiu que nada sentia
De tudo que a boca sabia
Ao desejo nada adiantava

Em pensar que de loucura
Um dia incendiou a face
Que agora é rubro disfarce
Do beijo que me tortura

Ana Oliveira

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Abandonos

Risco meu rosto cansado
E visto a máscara de estátua
Saio engolindo tristezas
Pelos abandonos da rua

Choro a sina da impotência
Da resistência de mãos atadas
De um olhar que sente a cidade
Que passa saudando a calçada

Ando passível ao encontro
De quem vive a própria sorte
Teimando escrever a história
Da vida que segue sem rosto

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Deseo de niña















En encuentros imaginarios
Te veo en medio a la multitud
Planeo mis palabras ensayadas
Salgo a tropezar en mi inquietud

En una soledad ansiosa y callada
Con invencible deseo de niña
Vivo de toda sorte, aislada
A buscarte como ave de rapiña

Sin ti, mi memoria es una luz
Que alumbra un ricón sombrío
Hecho ojos paganos de un andaluz
Desenganado amor en desvarío

Ana Oliveira

Amor chuva





















Sem saber por onde começar
Nem quem querer
Cansado da fama de tudo poder
O amor se fez chuva
Pra não ter que explicar
E chegar sem pedir
Choveu assim
Como, quando e onde quis
Levou as coisas do varal
E ignorou os desavisados
Tão breve e devastador
Que arrasou tudo
Deixando rastos molhados
Que secam
Mas nunca são os mesmos
Penetrou na alma da roupa
E na roupa da alma.

Ana Oliveira

sábado, 2 de julho de 2016

Ainda sobre sonhos





















Sonhos são balões selvagens
Que moram no céu do inconsciente.
Vagam pelos atalhos das nuvens
Em meio à metamorfose das chuvas ácidas
Que choram vermelhos pingos de saudade.
Devaneios que nunca dormem
Sabem misturar desejos
Com mentiras escondidas
Querem ser contados,
Mas muito mais esquecidos
São quimeras voadoras que viram mar
Rabiscos oníricos
De onde saltam seios macios, ressentidos,
Vivem no pequeno instante
Em que os cílios borboleteiam
No véu da madrugada

Ana Oliveira

O sonho do outro


Um dia descobriu que vivia outras vidas. Não que lhes faltasse tal merecimento, apenas não eram suas. De pequena, inconscientemente decidiu não viver a sua existência. Talvez por nunca ter nela encontrado sentido ou abraço. Desde então passou a emprestar seu vazio para lotar sonhos alheios, sem que jamais algum a pudesse preencher. Vivia em uma espécie de limbo. Um purgatório de almas emprestadas que, de início, fuga, mas que depois se tornara ofício. Certa vez, assim num piscar de olhos, fora banida daquele que, por um lapso de tempo e espaço, acreditou ser seu primeiro sonho. Ficou vagando como um depositário de desejos ambulante e fatigado, frequentando bares e becos em busca de vontades sem lar como um parasita largado à onírica sorte. Encontrou muitos deles e, ao passo em que fazia o que de melhor sabia, a mais terrível angústia lhe acometia as entranhas: não mais sonhar. Eis que um sentimento vestido do mais cruel caráter perfurara seu subconsciente e ali injetara generosas doses de ausência de ilusões. Dias e noites delirantes degustaram suas vísceras ardidas e magras em que já não distinguia o cheiro nem as cores das coisas. Tudo parecia amarelado e as vozes agiam tão distantes quanto os rostos desfocados. Queria um sonho! Poderia ser qualquer um. Jamais os havia escolhido tampouco subestimado. Cansada e aturdida, sem o único dom que lhe tornara útil, ingressou em uma longa viagem rumo ao lugar para onde vão todas as quimeras perdidas. E fora ali, na ante-sala da última gota de sangue, quase sem mais tempo ou sorte, que encontrou os sonhos que incansavelmente buscara, e eram todos seus.

Ana Oliveira

terça-feira, 7 de junho de 2016

Choro canção














Pega teu coração na mão
Aperta até esmagar essas palavras
Que vomitam ordem aos teus medos
Junta a coragem que te resta
E não diga mais que vai ser sempre assim,
Pedaços dilacerados pelo chão
E vontades pisadas pela garganta muda
Será que sorrir sem memória
É melhor que viver de lembranças?
Pior ainda é saber,
Que de morrer de amor ninguém morre
Que o trabalho dignifica o homem
Mas a obrigação destrói o artista
Junta teus cacos
E engole o álcool num choro só canção
De manhã, pede mais noite no quarto
Que a lua amanhece com fome
Pois o tempo é aquele que diz sim
E aquele que diz não.

Ana Oliveira

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O rubor da saudade



O êxito dos nossos desencontros
Provoca o desjejum da ausência
Que merece ficar à míngua de nós
Morrer vazia de obscenos abraços

Quanto à saudade, guarde para ela
O melhor canto da casa, da mala
Que de tão cheia de fome, avermelha
Face ao rubor da poesia que exala

Ao que toca o amor sem escudos
Um pouco de suspiro de seu bem
No corpo que esconde no escuro
A ânsia pelo tempo desse alguém


Ana Oliveira

quinta-feira, 19 de maio de 2016

¿Quién va...?




¿Quién puede compensar los dolores de la infancia?
¿Quién va a ablandar el pecho desgarrado por las noches de miedo y lloro?
¿Quién va a suportar convivir con sus fantasmas?
¿Quién va a querer compartir de la soledad?

Ya no puedo hacer lo mismo.

Mar Rubina

terça-feira, 17 de maio de 2016

Poeminha

Às vezes é o poema quem me escreve.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Alma desnuda


¡Razón! No enmudezca mi amor
¡Juicio! No acalle mi corazón
¡Pensamiento! Quieras solo sentir
Ayer vi mi alma desnuda
Hoy olvido tu nombre
Mañana no lo quiero perder

¡Deseo! No enloquezca mis sueños
¡Temblor! No gobierne mi cabeza
¡Nostalgia! Devuelva mis abrazos
Ayer olvidé tu nombre
Hoy no quiero perderme
Mañana veré tu alma desnuda

Ana Oliveira

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Camuflagem


Sombra deserta, deserdada
Pinta a poesia de palavras
Cresce em meu corpo, o mundo
Provoca a intimidade calada

Se enxerga letras no ar
São meus versos o que vês
Camuflados de melancolia
Fadados ao desmanchar

Mescla de terra e devir
Que o livro de cor entoa
Andaluz e pálido sentir
Que a alma se vive, voa...

Ana Oliveira

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O abismo da flor


Ainda que acalme a dor
Do triste botão da rosa
Queria abrir-se em flor
Ser poesia, não prosa

Talvez o coração cansado
Da rosa sem fé, nem norte
Ficasse assim, enterrado
No abismo que lhe conforte

Ana Oliveira

Tolices





















Se depois de triste, alegre
E se de feliz, melancolia
A vida cospe a toda hora
Negando tudo que se queria

Se brinca de viver a verdade
Ainda assim não se mente
Esconde talvez a saudade
Que obriga o tempo da gente

Se a lua trouxesse tudo
O que se sonhou um dia
Seria o intento do desejo
O amor que se merecia

Ana Oliveira

terça-feira, 5 de abril de 2016

Quimera

Não mais me importa o mundo
Que só olha para o próprio céu
Não enxerga as cores do outro
Em seu umbigo fica absorto

Não mais me encanta o jeito
Que engana o amor sublime
Nem percebe qual o crime
Oferta sem tempo o proveito

Não mais me basta migalha
Que a vida tudo atrapalha
Vai logo o que nunca era
Esquece o que já quimera

Ana Oliveira

Tempo de ternura

Minha saudade tem nome
Tem cor, cheiro e memória
Caminha contra a demora
Do encontro que se consome

Cada manhã tem mais vida
No abraço que não disfarça
A luz que tudo ultrapassa
Dissolve a dor exaurida

Todo amor que traz cura
Vem com o antídoto certo
Que bom mesmo é estar perto
Sem medir tempo e ternura

Ana Oliveira

quarta-feira, 23 de março de 2016

Sorvete de banana

Que mundo é o teu, meu bem?
O de honrados mestres reais?
Que giram espadas e palavras voadoras
Rumo ao nascer do sol da mente?

Que tempo é o teu, menino?
O de aparar as arestas, espiar entre frestas
O branco doce da pele, que impele
Assusta a alma que desenha na palma?

Que desejo é o teu, amor?
De entender o que o sábio omite, resiste
Abraçar as páginas do universo
Pra só então alforriar a dor?

Ana Oliveira


sexta-feira, 18 de março de 2016

La pequeña muerte de los días


El amor es una pequeña muerte
Es el sarcófago esculpido de eternidad
Me muero junto con todas las tardes
Violando mi naturaleza ardente

A cada entardecer hay una realidad
De los días más sólos do que nunca
Como una caja de Pandora sin fondo
Y el desespero de la retina sin mundo 

Carmen Rojo


Poema etéreo


El poema invierte los sentidos
Entrelaza figuras contrarias
Quiere salvar invisibles obstáculos
Del corazón donde habitan las alas

Hay una sombra alrededor de la noche
Que escribe con gestos perturbados
Fija em su reflexo, pero extraño, hostil
El terror del sonámbulo despertado

Hago versos de mis soledades
Pues mis riesgos son hechos aéreos
Mismo que el escenario sea penumbra
Y la música fantasmas etéreos

Carmen Rojo

quinta-feira, 17 de março de 2016

Soledad sonora

El pensamiento que canta
La musica sofocada
Hace una soledad sonora
Para despoblar su morada

El claro silencio luminoso
De las memorias en conmoción
Es como bailar con el peligro
En el trayeto invisible del corazón

La falsa neutralidad del sueño
Es la flor de ese torbellino
Que con vientos dibuja la vida
Y apunta a un fin en desaliño

Cuando el alma es oscuro
Y el miedo expuesto, abierto
En la herida más visible que la belleza
El destino del cuerpo es descobierto

Carmen Rojo

terça-feira, 15 de março de 2016

Gaveta



Eu finjo que amo outras coisas para compensar a dor dos olhos que amanhecem diariamente sem saber dos teus. Invento felicidades que precisam ser numerosas para compensar o vazio de um único abraço. O sono que me contempla com tua ausência é o mesmo que se faz carrasco das horas e horas a mais que sobram para imaginar outro desfecho de nós, outro começo. O esforço que faço para disfarçar só não é maior que o ímpeto de sair voando para dentro do teu mundo, ainda que nele exista para mim, somente uma gaveta. Sei que as linhas da tua vida são menos tortas que as minhas, que passamos por promessas e enganos e que nosso tempo foi curto e ao revés. Cansei de trocar o fim pelos inícios, de me perguntar se ser nada é o começo de ser tudo ou se a verdade é a mistura do meu universo inventado e do teu ouro de tolo.

Ana Oliveira

quarta-feira, 9 de março de 2016

Trinta e cinco
















Não te ver
É mais que morrer
É jogar milho numa praça sem pombos
É o coração aos tombos
Esperando envelhecer

Não te ver
É dor de ferro em brasa
É o corte da asa
De um pássaro desenganado
É carne dilacerada

Não te ver
É menos que viver
É engolir o choro do samba
Num carnaval feito de quarta
É o cortejo do enterro

Pra que a colombina parta.

Anna Poulain







quinta-feira, 3 de março de 2016

Presságio





Corre menina!
Não vê que o amor passa
E que de morrer basta!?

Anna Poulain

A chuva dos olhos

Hoje, ao acordar, chovia. Não aquelas gotas cinza-gelo dos dias que lá fora, proclamam a chegada do outono, mas aqui dentro. Ao abrir os olhos, vi uma nuvem grudada no teto da minha casa e outra alojada no meio do meu peito. Então esperei que chovessem braços, que deles viessem mãos e delas surgissem afagos capazes de arrancar esse cansaço que a alma chama de saudade. Desejei que o chão revirado pela enxurrada se abrisse e raízes macias com cheiro de terra molhada subissem em minhas pernas, emaranhadas como um abraço deve ser, firme e recíproco. Mesmo com medo, ansiei que um vendaval com nome de moço chegasse, anunciado por uma brisa quente e que logo depois, fizesse meu coração levantar voo junto aos móveis e sonhos, num insano e mágico arrebatamento. Ao acordar, implorei ao vento para que abrisse meus olhos grudados pela chuva e pela dor de um sentir sujeito a morrer seco, sem palavras, desesperado e só. Porque até para maldizer o amor, tem que amar. 

Ana Oliveira

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Consagração


Os vícios feitos de açúcar
E a doce mudez que beija
Com olhos castanhos, nectáreos
Molhada, a terra festeja

Afável noite que imagina
Méleos encontros inesperados
E a tenra nudez vertical
Voyer de corpos desordenados

Nectarina floresta insólita
Que abriga seres invisíveis
Espiona sátiros e ninfas
Na flama da atração frenética

Ana Oliveira

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Horas nubladas, noites de verão

Nas horas nubladas do dia
Tão mais simples o entreter
Mas quando a lua assovia
Amarrada ao fio da saudade
Cheia de bruma e ardor
Calmamente a dor anuncia
O gosto proibido do amor

Nas noites silenciosas de verão
De sonhos e suspiros engolidos
Surgem delírios do teu rosto
Desenhado nas réstias da parede
Ilusões esgotadas de soluço
Nutrindo de medo o segredo
Que sem zelo morre de sede

Ana Oliveira

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O amor que era de vidro






















Já não sei mais escrever sobre nós
Há uma lacuna na pele e no peito
Há também uma memória escassa
Que se perde na casa dos sentidos
Que sem cheiro, abraço ou canção
Realçam as cores do esquecimento

É como uma fina xilogravura
Que a mão do tempo não apaga
Mas empalidece suas linhas

Escrever sobre nós ainda é
A tentativa de nos resguardar
Dessa lua viúva de boca amordaçada
Desse indócil acaso de pés acorrentados

Ana Oliveira


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Dor de Florbela

À espera da alma sem algema
Num caixote de memórias vivas
Abrem mão do frescor primaveril
Tanto o amor, quanto o poema

O coração sombrio da flor
Na noite cálida e amarela
Verseja a vontade do verso
Tal qual a dor de Florbela

O devir travestido de sina
Permeia entre sombra e solfejo
Fadado a acariciar o tempo
Algoz do próprio desejo

sábado, 30 de janeiro de 2016

Sin la tuya


Sin la tuya
Mi vida es partida
De la cama sin habitación
Del prato sin mesa
Estrella sin punta
Poema sin libro
Retrato sin sonrisa

Sin el tuyo
Mi alma es doído
Dolor de amigo perdido
Del beso sin boca
Del mirar sin colorido
Del la lluvia sin sentido
Una estrada sin camino

Sin la tuya
Mi vida es muerta
Naufrágio sin vela
Cuadro sin mañana
Ida sin silêncio
El corazón sin calle
De los ojos sin ventana

Ana Oliveira

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Coração desordenado


Se bate as asas do peito
Espera que o olhar aproxime
Tudo em ti é desordem
Ainda que o verso rime

Se esconde o desejo do acaso
E sufoca a parca ternura
Tudo em ti ainda é desordem
Embora se arranque a amargura

Se corrige as horas tortas
Do balé das voltas do vento
Tudo em ti é sempre desordem
Mesmo que se pare o tempo.

Ana Oliveira

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Amanhecer


Eu vivi
E os anos passaram sem ti
Sem que, só porque
Eu falei
A poesia que veio do peito
Te levou, sem querer
Acordei
Do passado que te reconhece
Mas que esquece também

Ah, e amei...
Toda lua que cheia de choro
Noite dessas nasce de novo
Pra tão cheia explodir sobre nós

Eu corri
Desse medo do tempo que passa
Sem que a vida deixe seguir
Eu sorri
Pro presente que muito me custa
E merece só amanhecer
E pedi
Que partisse sem nenhuma volta
Repartisse pro mundo me achar

Ana Oliveira

Qualquer pedaço de saudade

















Depois de tanto
Te devolvo ao vento
Como se folha,
Pena ou asa
Como se de toda sede
Sem que vivesse ou matasse
Confusa comesse o tempo

De tão perto
Te vejo imóvel
Submerso num mar letárgico
Repartido dado inefável
Como se com pedra,
Gelo ou vidro
Golpeasse a frágil ternura

Longe de ti
É também de mim
Como se perdido da coragem,
inconsciência ou urgência
Subvertido e livre do impasse
Negasse a toda vontade
Qualquer pedaço de saudade

Ana Oliveira



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Tuya


Prefiero que vuelvan las horas frías
Donde el calor es más que verano
Días largos de casas cerradas
Velas revoltosas, camas encendidas

Despoblados son los meses calientes
Abren ventanas pero cierran corazones
Un fuego que repele si no deseado
Es la piel que quema el cuerpo sudado

Espero que me traigas el invierno
Aquel que durará cuatro estaciones
Guiado solo por el hambre que abraza
El beso embotellado, tinto y tierno.

Ana Oliveira

Papel de carta













O outro lado do papel
É como a manhã do amor
Veste o relevo de marcas
Que o tempo cobre, não apaga

A inocência da folha branca
Dedicada a aceitar a tinta
Leve, não conhece mágoa
Com o coração que acredita

Do rascunho, pouco se sabe
Apenas que concede idas e voltas
Arrisca sem ordem, nem regras
Tal qual amar sem trancar a porta

Ana Oliveira

Sem tempo, nem hora













O amor é coisa de sentir
Todo dia se quer entender
Toda hora se quer convencer
Mas não é isso de saber

É de se perder a hora
Junto ao relógio de pulso
Há de se largar a janta
De não molhar a planta 

Dos livros que vivem na estante
Suspira o que moram os versos
Do poema que não ensina
Também quer o que desatina

Há de se ganhar do tempo
Enquanto dele se esquece
É de se calar a boca
E de se espalhar a roupa.

Ana Oliveira





Soneto Aprisionado

















Presa a ânsia sem fôlego
Num caixote cheio de memorias
Joga a brisa úmida para fora
Quente e densa, vai embora

Pontas de traumas e recalques
Soltas pelo chão de madeira
Espetam bolhas de velhos sonhos
Libertando o grito da voz dos vícios

Paredes arranhadas pela agonia
Contam através do sangue à lembrança
Do tirano lastro que aprisiona a alegria

É a liberdade a alforria da beleza?
Será preciso mais que força e martelo
Para que não fujam as asas da presa

Ana Oliveira






domingo, 3 de janeiro de 2016

Sem

Solidão é o ventre seco e oco
A comida sem fome
A árvore sem passarinho
É madeira sem seiva
Teto sem lar, nem gente
Solidão é um não de repente
Sem aviso prévio
Sem mato nem gato
É a vida sem terceiro ato.

Luz cega, fogo frio


Não tenho mais medo do escuro
Nem da luz que brilha de cegar
Meu pavor é da desalma humana
Carregada de artifícios, ilusões

Onde estão os espíritos bruxuleantes?
As sensações inexplicáveis?

Deixo que as lâmpadas durmam
Enquanto os sussurros da cidade
Agem como suave sonífero
Amortecendo meus lábios frios

É como se todo receio
Tivesse se tornado insignificante
Ante ao veneno que paralisa o corpo
Enquanto penetra no que não é

O silêncio já não amedronta
As vozes que não se falam

Nenhuma força é tão miserável
E indiscreta quanto o amor
Nele, não há véu nem virtude.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Apenas rio






















Apenas porque rio, não julgue
O riso bate na porta pra entrar
Logo, não é verdadeiro
Esse que não pede é senhor
Um dono que vem e vai
Assim, sem perguntar
O porquê de tanto desejo

A ele damos tudo,
Tempo, sono, poemas
Deixamos que subtraia
O calor da face que sucumbe
Mas o teu...
Berra em meus ouvidos
Como quem diz: Aqui estou!
Até meu sangue voltar queimando
Para as pálidas rosas de antes 

Na dança conforme tua música
O coração ensanguentado
Tira a lágrima para dançar
No frenesi das cordas dissonantes
Que levam para onde bem querem
Meus loucos sentimentos por ti

Leio livros sem poder manter os olhos
Sobre as páginas que riem
Na amarga ironia do sarcasmo
Do meu  riso que permanecerá longe
Por um longo e triste tempo
Na solidão que se aninhou em mim

Contudo, ainda rimos
De tanto chorar

Ana Oliveira